Frank é um ex-viciado em drogas, alcoólatra e ninfomaníaco. Abusado sexualmente pelos pais desde a infância, ele não teve (quase) nenhuma relação saudável ao longo da vida. Sua experiência de internação no hospício é marcada por mais abusos e traumas. Frank só consegue se relacionar com as pessoas através do sexo. É o único modo que ele conhece de interagir. Alice, uma outra jovem interna do hospício, é seu amor idealizado e não-realizado. Um tesouro que sua memória guarda como algo positivo, mas também com a tristeza da tragédia.
É por isso que ele cria, anos depois, a ball jointed Alice. E Alice é uma boneca viva. Isso mesmo. Frank, um artista, consegue a criação primeva. Ou isso, ou ele está completamente louco (o que é bem verdade). O livro então tem esse elemento fantástico, e fantástico mesmo, não fantasia (tem uma discussão sobre isso aqui). Não espere explicações ou respostas. Alice é uma boneca viva. Pronto. E as barreiras entre o que é ficção e realidade, o que é material ou só fruto da imaginação daquele monte de gente louca, são totalmente embaçadas.
A vida de Frank e Alice descarrilha (é, trem descarrilhando mesmo, gente, o troço é tenso aqui) quando Tay, uma suposta anoréxica com distúrbios emocionais, Emi, uma sociopata e Shin, um bacharel em Direito aparecem pela porta da frente trazendo com eles as memórias do hospício. O motivo? Vingança. Se livrar de todos aqueles que causaram tanta dor e sofrimento em sua juventude e fazê-los pagar pelo que aconteceu com Alice.
Na companhia da boneca Alice, Frank embarca nessa jornada de sangue e vingança, mas também de memórias e respostas. Agora com uma arma na mão, ele terá que enfrentar demônios externos e internos enquanto participa de um plano de chacina.
A escrita de Priscilla Matsumoto é visceral, mas também lírica. Numa estrutura que não tem nada de linear e nada de tradicional, somos atirados na mente de Frank e vamos puxando, junto com ele, os fios que levam a quem realmente somos. A boneca Alice, que aprende algo novo a cada capítulo (sorrir, amar, mentir, matar, morrer, etc) é um espelho de seu criador: quem na verdade aprende tudo isso é Frank.
Não é uma leitura fácil. Mas é uma leitura fluida. Requer um esforço do leitor entender a lógica das lembranças de Frank, mas a autora conseguiu criar uma empatia tão grande com seu protagonista, que eu me vi absorta por aquele universo e li o livro em dois dias. Chorei e sorri com essa história. E depois chorei de novo.
Ball Jointed Alice é como uma música da banda My Chemical Romance: violento, sexy, mórbido, suicida, sinistro e dramático, mas ao mesmo tempo cheio de esperança. Talvez nosso mundo seja mesmo tudo isso e nós todos vivamos em nossos próprios hospícios criando nossas bonecas vivas para continuarmos.