O gaúcho promotor de justiça, crítico e ficcionista Carlos Nejar, nascido em 1939, em Porto Alegre, é considerado o poeta do pampa brasileiro, ou ainda o poeta da condição humana. Isso porque suas belas poesias estão arraigadas na condição humana, exibe revolta diante condições sociais de abandono dos pobres do campo, sem terras, pagamentos justos e sem futuro. Suas poesias tendem também, para o lirismo, o épico e o místico. Aí vai uma pequena amostra das obras-primas de Nejar, querendo mais é só ler o livro, vale a pena conferir! A vós, que me despejastes nesta loucura sem telhas e neste chão de desastres, acaso devo ajoelhar-me e bendizer as cadeias ? E ser aquele que acata as ordens e ser aquele, apaziguado e cordado, preso às aranhas e às teias. Levando o sim em uma das mãos e o não noutra, rastejante aos senhores da ocasião e da guerra. Ser no chão, o inseto e sua caverna ? Corrente serei no recuo das águas. Resina aos frutos do exílio. Espúrio entre as bodas. Resíduo. Até poder elevar-me com a força de outras asas, para os meus próprios lugares. A vós, que me despejastes nesta loucura sem telhas e neste chão de desastres, com a resistência das penas, aceitarei o combate. (Carlos Nejar, Aos senhores da ocasião e da guerra) Nossas dramas quotidianos não contam na milícia dos dias. Iguais às nuvens, as noites vêm e vão num redondel ou tubo. E os reveses são núcleo. Qualquer gota nos filtra. O extravio é nossa identidade. Nosso número. Tudo sucede a tudo e nós, humanos, não nos sucedemos. Nos sucedem. E o sangue é a cal do sangue, sua província. Só vinga o que adubamos com folhas de abandono. Tábuas de rebelião. Tábuas de dor, nós somos. Tábuas, tábuas do universo inviável. Tudo sucede a tudo. Sem vestígio. Insubmissos , nosso amor remonta aos astros. E é o desequilíbrio. (Carlos Nejar, Prólogo) Calemo-nos. O amor se alimenta silêncio. As nossas mãos, os corpos, a alma e estes verdes, que, pelo monte, manam e do cristal o peso que sustamos,nascendo. E o que, planos,plantamos. E o só calar é amor. E nós nos depuramos no ileso, no secreto, no mais: aquele espesso, onde não somos nós mas somos o silêncio. (Carlos Nejar, Impronunciado)

