O pós-moderno desajustado em "Cinderela" de Carlos Bruni
"Cinderela desajustada" (Penalux, 2015) reúne 19 contos do escritor Carlos Bruni. Em comum, eles têm o desajuste humano neste começo de século. Narrado sobretudo em terceira pessoa, alguns contos, como "Mathias Brandão encontra Lauren Bacall", primam pelo suspense em primeira. Mas o grande elemento estilístico de Bruni em seus contos é um desfecho completamente inesperado, como o que ocorre, de forma forte e brutal, no conto que dá o nome ao livro. Às vezes, é difícil entender as personagens de Bruni: suas motivações, seus preconceitos e seu comportamento. Elas se parecem com peixes se debatendo fora da água, mas a narração é chapada: estilizando tudo num modo de voz monocórdio, civilizado e superficial, parece não querer dizer tudo o que diz. Mas diz! As relações amorosas e seus desencontros são a tônica do livro. Nos contos, as personagens falam de sexo e traição sem alterar a voz, com uma superioridade nada latina. Em "Cinderela desajustada" não tem barraco. A própria Cinderela, que se sabe desajustada, faz apenas o que deve fazer, sem grandes dramas. É bastante gratificante na leitura dos textos de Carlos Bruni encontrar um estilo definido, elegante e com um acento gramatical próprio de obras mais antigas. Por exemplo, no primeiro parágrafo de "Considerações à hora de jantar", encontra-se a expresssão "chegar a casa". Aliás, passando do tópico da gramática para o da composição, este é um dos contos mais interessantes do livro, por sua polifonia. Um pai, uma mãe e uma filha estão à mesa: não se falam, mas pensam como se estivessem falando. A marcação da mudança de voz é feita por sinais gráficos: (!) para o pai, (=) para a mãe e (...) para a filha. A reflexão, feita pelas personagens e operadas pelo narrador, é constante, e muitas vezes poética, como neste trecho de "Lídia ou Tchaikovsky": "O Tema do Destino voltou com fragor, fazendo-o encolher-se na poltrona e olhar as pedras no copo cada vez menores.Sentiu o corpo arrepiar-se com a ideia de ver seu lado pragmático colocado à prova, posição inesperada para quem nunca se imaginou questionando isso. Um conflito surgiu e uma racionalidade agora balançava como o gelo flutuante. Aflorou dentro de si o pensamento opressor e não menos exagerado de ver, num paralelo trágico, os fatos de alguma forma se repetirem." É possível sentir a temperatura da personagem no "comportamento" do gelo no seu drink. Assim é "Cinderela desajustada": um livro que cativa pela sua bela escrita, e também pela criatividade do autor, para quem cada desfecho nunca é exatamente um final feliz mas uma feliz surpresa literária.
