Nessa época de GPS, Street View e Google Earth, a antiga ciência da cartografia tornou-se praticamente obsoleta. Um logradouro, uma cidade ou um país, que outrora, dependendo da escala adotada, ficava a centímetros de distância de um ponto a outro em um mapa, mas que na realidade correspondiam a milhares de quilômetros de separação, atualmente está ali, a distância e a vontade de alguns cliques com zoom e em alta definição. E dependendo do caso até em tempo real.
Grosseiramente falando, o que são os mapas se não registros estáticos de um lugar? Uma lembrança de uma ideia de um local? Um retrato abstrato e subjetivo de uma região ou um continente?
Porém, fugindo do pessimismo que por ventura venha atrelado ao modernismo, o historiador (e também cartógrafo) Jerry Brotton apresenta os mapas em seu mais recente livro, como personagens ativos e essências na História da humanidade.
Uma história do mundo em doze mapas é um passeio fascinante e elucidativo sobre a importância dessas representações para a construção histórica do mundo e também como objeto cultural. Com argumentos objetivos e um texto claro, Brotton que é professor na Universidade de Queen Mary em Londres, entrega um refinado e cuidadoso trabalho nas mais de 600 páginas do livro. No Brasil, a edição da Editora Zahar, fez jus ao peso e ao valor da obra ao trazê-la com um acabamento dedicado e uma tradução cuidadosa.
Denotando uma extensa pesquisa, o autor propõe um panorama interessante sobre a história do mundo e dos mapas, onde por vezes, eles eram protagonistas e coadjuvantes na escala construtiva e evolutiva dos mapas como conceitos de “modelos do mundo”.
- A Geografia de Ptolomeu, c.150 D.C.
- Al-Idrisi, 1154 D.C.
- O mapa-múndi de Hereford, c.1300.
- O mapa mundial Kangnido, 1402.
- Martin Waldseemüller, mapa do mundo, 1507.
- Diogo Ribeiro, mapa do mundo, 1529.
- Gerard Mercator, mapa do mundo, 1569.
- Joan Blaeu, Atlas maior, 1662.
- Família Cassini, mapa da França, 1793.
- Halford Mackinder, "O eixo geográfico da história", 1904.
- A projeção de Peters, 1973.
- Google Earth, 2012.
A premissa do livro está ilustrada nos doze mapas acima mencionados, que por sinal, estão muito além deles em si. Brotton se preocupa em contextualizar a origem e a finalidade destes, contando também sobre o quanto eles foram influentes em suas respectivas épocas. E vai além, ao desmitificar algumas verdades, ao exemplificar, que em alguns mapas, o Sul era na verdade o ponto de orientação cardeal e o porquê do Norte ser a direção absoluta desde o século XV não é tão científico assim.
Na época da Idade Média, o mapa-múndi de Hereford retratava a Ásia como um lugar repleto de grifos, canibais e daqueles que eram “os filhos de Caim”. Por sua vez, na China, a recíproca era verdadeira, pois alguns de seus mapas retratavam o Ocidente como um lugar de selvageria.
“Cada mapa descrito nesse livro é um mundo em si mesmo.”
Outro destaque interessante no título é sobre uma família de franceses que durante quatro gerações, organizaram um mapeamento extremamente detalhado e preciso da França do século XVII e XVIII, utilizando uma técnica que atualmente conhecemos como triangulação.
Uma história do mundo em doze mapas é um livro amplo e dinâmico. Uma leitura agradável e rica em detalhes, que mantém o interesse do leitor vivo para o próximo capítulo. Em suma, um questionamento que é levantado no decorrer da leitura é do quanto há de cultural e de político, na elaboração dos mapas. Se o propósito do mesmo era representar um espaço físico, uma superfície plana ou o globo em si, ou se era simplesmente apontar onde existia especiarias e riquezas. De Ptolomeu, “o pai da geografia”, até o Google Earth, o livro é um mosaico interessante sobre os aspectos históricos, sociais e até políticos em que tais mapas foram criados.
“O mapa tornou-se um dispositivo para arquivar o conhecimento sobre o mundo habitado”
Dos antigos cartógrafos da Mesopotâmia ao alcance e precisão dos atuais satélites, existe obviamente uma enorme distância cultural, histórica e principalmente tecnológica, mas o objetivo e a ideia persistem, o ser humano precisa expressar o que lhe cerca, e não há representação melhor do mundo, se não a dos mapas.