Edição Especial Arte-Educação em HQs, com destaque para Maurício de Sousa e Ziraldo.
Edição Especial Arte-Educação em HQs, com destaque para Maurício de Sousa e Ziraldo.
Adquiri essa revista em 2013 e acabei esquecendo-a em um canto qualquer. É uma edição com vários artigos sobre a literatura em quadrinhos. Destes, gostei mais de: "O Comics Code Authority" - Um texto que fala da censura que os quadrinhos norte americanos sofreram nas décadas de 1950 a 1970, através das pesquisas de um psiquiatra. Fredric Wertham publicou em 1954 a obra "Sedução do Inocente", que tinha visão preconceituosa e taxativa sobre as HQs, culpando-as pela delinquência juvenil e perversão sexual. Alguns conceitos são super equivocados, vetando a possibilidade de inspiração na realidade. Entre outras coisas, as HQs não poderiam citar corrupção no governo ou guerras (e o pau estava torando na Guerra Fria e depois no Vietnã). Pior que alguns personagens foram associados à interpretação do psiquiatra, ocorrendo desconstruções. Por exemplo: a icônica Mulher-Maravilha foi considerada lésbica por instigar a luta pelos direitos femininos; o Super-Homem representaria um espírito antiamericano (justamente o maior escoteiro patriota); e tem também aquela má fama que deram para o Batman e Robin. Esse quiproquó gerou censura (representada no selo que nomeia o artigo), detonou várias editoras e alavancou a carreira do psiquiatra como terapeuta juvenil. Ah, entendi a intenção do sujeito... Legal também "O universo dos quadrinhos reinventando os clássicos" - O artigo trata da importância das HQs no estímulo à literatura. Sou suspeito para falar, pois coleciono quadrinhos especializados em adaptação de clássicos. O texto traz o relato de uma professora que iniciou projeto de leitura no ensino fundamental quando conheceu a coleção "Clássicos da Literatura Disney" (tenho essa coleção, mas prefiro "Pateta faz História"). A partir daí, ressalta-se a HQ como ferramenta pedagógica e algumas obras são sugeridas. Historicamente, artigos nessa abordagem tem que citar o trabalho da EBAL no século passado, que de maneira pioneira, além de publicar adaptações produzidas no exterior, também investiu na adaptação da literatura nacional. Outro que precisa ser descoberto é o projeto de Ruy Trindade, idealizado nos anos 90 na Bahia. O cara quadrinizou cinco clássicos com a inovação de preservar o texto integral dos romances. Tenho essas obras, encontradas no circuito underground. Vou registrar uma sugestão sensacional para educadores e apreciadores do segmento, a excelente coleção da Escala Educacional: "Literatura Brasileira em Quadrinhos". Essa é demais! Ah, estou doido também para conhecer uma nova adaptação de "Moby Dick", recentemente publicada. Af! E ainda não vi nada além da capa. Só boas referências... "10 Considerações para professores que desejam trabalhar com HQs" - Só não gostei do texto em linguagem muito formal, em um academicismo pouco estimulante no fluir da leitura. Gostei da primeira colocação, que relaciona às HQs na aprendizagem de uma razão sensível e outra simbólica. A razão sensível está relacionada ao estímulo visual e a simbólica ao impacto do texto. Tem também entrevistas com dois feras dos quadrinhos nacionais: Maurício de Sousa e Ziraldo. A segunda foi mais interessante, onde o autor expõe a censura que a Turma do Pererê recebeu no período da ditadura, por trabalhar conceitos como ecologia, indígenas, importância ambiental e meio rural. Aspectos afetados pelas políticas do governo militar. Essa foi a razão da censura e dessa turminha do Ziraldo não ter emplacado, diante do potencial que tinha. O governo não queria essas coisas em evidência e discussão. Em outro momento (documentário na TV) vi o Ziraldo falando que o Galileu (a onça) poderia ser uma das personagens mais importantes dos quadrinhos nacionais. Isso é suspeito quando é o autor quem fala, né! Mas não tiro sua razão. Essa turma foi pioneira em quadrinhos em cores no país e a estética foi inspirada na proposta de Monteiro Lobato.


