A mitologia japonesa é cercada de pequenas histórias regionais de causar pavor. Por ser uma cultura que acredita bastante na presença etérea dos espíritos e no desejo de que eles tenham uma boa passagem, histórias como as dos tsumitsukis estão espalhadas por todo o interior do Japão. Hiro Kiyohara pega uma dessas histórias e cria um clima aterrorizante. Temos um menino estranho chamado Kuroe e uma raposa fantasma que o segue em várias partes. Está montado o ambiente para uma série de histórias de apavorar.
Este mangá é formado por quatro pequenas histórias que possuem um tema e um ambiente em comum. Apenas a primeira e a última (sem contar com o capítulo zero) tem algum tipo de ligação mais direta. O elo de ligação entre as quatro histórias é o templo onde fica Kuroe. Como toda coletânea de histórias, existem algumas boas e algumas ruins. Por isso a minha avaliação do mangá caiu um pouco. Como só temos um personagem que serve de ligação, não dá para dizer que existe um grande desenvolvimento de personagem. O aspecto mitológico é bem preciso e faz sentido apesar das loucuras que o Kiyohara se permite fazer no clímax dos pequenos contos.
Kiyohara não é muito de usar ambientações. Tirando pela memória e consultando rapidamente a minha edição eu só consegui visualizar alguns ambientes como a escola, o templo e algumas ruas. Mesmo assim estes ambientes não são muito bem trabalhados e senti que os cenários acabaram mais difusos. Com exceção do capítulo zero que eu gostei demais do cenário que possuía um estilo mais antigo e clássico. Porém, o autor compensa isso com o emprego bem eficiente de um esquema de luzes e sombras. Em alguns momentos, o autor faz um jogo de preto e branco que marca bastante os sentimentos dos personagens: o branco quando algum busca a salvação ou quando a história se inicia e o negro quando o desespero toma conta. Kiyohara trabalha muito também com o olhar dos personagens. Eles transbordam os sentimentos macabros vividos naquele momento: medo, pavor, fúria, assombro. Essa expressividade no olhar funciona bem para uma história de terror que depende muitas vezes ora de uma construção de um clima propício ao medo, ora de personagens que consigam expressar de forma eficiente o que estão sentindo.
Vários temas são trabalhados pelo autor, mas vou falar apenas do que menos me agradou e do que mais me agradou. Começando pelo ponto negativo, a primeira história me incomodou um pouco pelas lacunas deixadas. Entendi após uma releitura o que a Shinohara fez, mas o autor deixa tudo muito interpretativo da parte do leitor. E isso não é um recurso que ele vai usar em outras, caso contrário até seria interessante. Como eu só vi isso na primeira história, posso entender que se tratou mais de corte ou esquecimento. Os fatos que compõem a trama são muito soltos como até a amizade da Chinatsu pela Shinohara. Acontece muito subitamente e de forma aleatória. Parece até que a amizade foi meio forçada para que a história pudesse ser conduzida adiante. A segunda e a terceira histórias conseguem ter muito mais força do que esta. Não consegui comprar a amizade das duas meninas e os sentimentos de uma pela outra.
Já a terceira história é bem poderosa. Mexer com o tema da violência doméstica é sempre eficiente. E da maneira como o Kiyohara fez, enganando os leitores a partir da percepção óbvia é interessante. Ele derruba o leitor que tira conclusões precipitadas acerca do que está se passando. Para mim, o estilo do Kiyohara funciona melhor nesse tipo de história, com o terror sendo propulsionado a partir de uma situação real elevada à máxima potência. Os quadros são bastante emotivos e mesmo o momento da revelação tem poder sobre a história. Fiquei muito animado porque parece que o Kiyohara faz algo semelhante em sua obra mais famosa, a série Another.
Enfim, Tsumitsuki é uma história mediana que consegue entreter mostrando um pouco mais da cultura oriental para os leitores. O autor pega parte do folclore japonês e cria uma história que ora tem um caráter muito intimista, ora tem uma pegada mais comum. É no intimismo que o autor consegue impressionar mais. Gostei bastante do jogo de luz e sombra que ele faz na história, apesar de achar que os cenários de fundo ficaram mal trabalhados.