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    As Palavras e as Coisas - Uma Arqueologia das Ciências Humanas

    Michel Foucault

    Martins Fontes
    1999
    536 páginas
    17h 52m
    ISBN-10: 8533609973
    Português Brasileiro
    4.3
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    As ciências humanas são mais do que um saber - elas são uma prática, elas são instituições. Michel Foucault, ao analisar a gênese e a filosofia das ciências, mostra como é recente o aparecimento do 'homem' na história do nosso saber. Estuda a mudança interior de nossa cultura, do século XVIII ao século XIX, por meio da gramática geral, que se tornou filologia; da análise das riquezas, que se tornou economia política e da história natural, que se tornou biologia. Nós o acompanhamos num subsolo onde ele, como arqueólogo do pensamento, nos mostra aquilo que faz com que as ciências humanas, hoje, se tornem possíveis.

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    Jess Carmo27/08/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Surgimento do homem moderno

    Em seu livro "As palavras e as coisas", Foucault conjectura o desaparecimento do homem. Segundo ele, se as disposições que permitiram a construção do conceito homem viessem a desaparecer, o próprio conceito, a saber, o homem, também se desvaneceria, assim como um desenho na areia da praia apagado por uma onda. Nesse sentido, surgiria um novo problema e um novo objeto de estudo. Dizer que o homem é uma produção, é considerar como a cultura e a política está imbricada com a própria produção científica. A obra colocar em destaque como essa noção de individualidade surge através de práticas sociais e, sobretudo, dos saberes das ciências empíricas - Linguística, Biologia e Economia. Para Foucault, Kant é o filósofo que assume o papel de referência para o processo de transição do pensamento clássico para o pensamento moderno, não Descartes. Enquanto o segundo autor defendia a importância da matemática, do método para a ciência (a forma de se alcançar a verdade) e conceber um indivíduo/si a-histórico e universal, Kant levanta uma problemática distinta, a saber, o que é o presente ao qual pertenço? É essa reflexão que problematiza o homem que fala, o que é o homem moderno e o que é a modernidade. Enquanto para Descartes o homem é universal e, portanto, a-histórico, para Kant o homem se apresenta em sua finitude, ou seja, histórico. Isso não é possível com Descartes, porque a matemática não implica um indivíduo ou um Eu que se situa em determinado momento histórico, mas uma ordem de conhecimento que tem como pressuposto fundamental um Eu anterior a ela e a-histórico. Para Descartes, a aquisição de um conhecimento verdadeiro não poderia prescindir da razão. Além disso, o autor considerava que os sentidos humanos poderiam nos enganar e, por isso, não seria prudente construir um conhecimento apenas pela observação. A máthesis universal de Descartes é condição de possibilidade para conhecimento clássico, não da Modernidade. O conhecimento clássico conhece o mundo através da razão, não do empírico. A racionalidade Moderna rompe com a universalidade da máthesis e com razão clássica. Enquanto a filosofia de Descartes prescindia - em sua busca de construir uma ciência geral que explicasse tudo a partir da ordem e da matemática - de uma reflexão específica, Kant problematizará o presente, o campo transcendental, ou seja, as condições de possibilidade para a construção de formas que nos permite conhecer/pensar determinados objetos. Em suma, a ordem pura da razão formal não será mais suficiente para explicar essa região que se funda a empiricidade, mas a empiricidade não poderá suspender por total o campo formal. Sob um olhar arqueológico, é impossível o surgimento de um saber sobre o homem ou aparecimento das ciências humanas antes da Modernidade. Isso ocorre porque antes disso o homem não existia ou ao menos a representação que temos acerca do que é o homem moderno - finito, já que está limitado ao corpo, trabalho e linguagem; representável em sua existência corporal, falante e laborioso - não existia. Dessa forma, o homem só existe na Modernidade como um objeto a ser estudado pelas ciências humanas, na medida em que vive, fala e produz. É necessário fazer um recorte do a priori histórico que tornou possível o aparecimento das ciências humanas e do homem moderno. As ciências empíricas (a economia política, a linguística e a biologia) anunciam a finitude do homem. Quando o homem passa a ser objeto de análise das ciências empíricas, em sua positividade do saber, nos deparamos com nossa finitude, isto é, quando conhecemos a anatomia do corpo, os mecanismos dos custos de produção ou o sistema de conjugação indoeuropéia (Sistema de linguagem), produzimos o homem finito. O que esses campos de saberes mostram é que o homem, esse objeto produzido, é mais determinado do que livre. A finitude é a condição biológica, econômica e de linguagem do homem. A finitude é produzida pelas ciências empíricas e condição do homem. Ora, ao falar da escassez alimentar, a economia fala também da finitude. O trabalho, nesse sentido, é uma forma de escapar da morte iminente. Quando a medicina antomopatológica insere a lógica da doença no corpo do homem, toda intervenção médica será para evitar a finitude do corpo. Quando Freud teoriza acerca da pulsão de vida e pulsão de morte também está teorizando sobre a finitude humana. Enfim, é a finitude que dá condição de possibilidade para o surgimento das ciências humanas. Em suma, o homem empírico é uma construção conceitual totalmente diversa do homem racional de Descartes. Conforme discutido anteriormente, antes da Modernidade a ideia de um campo de conhecimento como os das ciências humanas era incompreensível, já que a representação do que é o homem também não era possível. Mas por quê? Será necessário o choque com a finitude do homem, através da positividade desses novos saberes das ciências empíricas, para que seja possível, dessa forma, constituir uma concepção de homem. Esse é o a priori histórico para o surgimento das ciências humanas e do homem moderno. Não significa dizer que o ser humano só existe a partir da modernidade, mas que o homem representável por seu labor (economia), sua existência corpórea (biologia) e pela fala (linguística) só é possível a partir deste momento. É nesse espaço de representação do homem que as ciências humanas se debruçarão. Nesse momento, o homem irá haver-se com o seu modo de ser (como trabalha, seu sistema econômico e sua fala).

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    Michel Foucault

    Michel Foucault foi um filósofo francês. Estudou filosofia e psicologia na École Normale Supérieure de Paris. Suas obras são contraponto à certeza inabalável de marxistas e freudianos radicais a partir de 1960. Foi um pensador de academia. Na década de 60 foi chefe do departamento de filosofia da Universidade de Clermont-Ferrand. O ápice de sua carreira acadêmica foi o cargo de Professor de História e Sistemas de Pensamento no College de France. A partir daí, e também devido a suas conferências em vários países, sua reputação e influência se espalhou pelo mundo. As maiores fontes do pensamento de Foucault foram as filosofias de Nietzsche e Heidegger. Assim, tanto a fenomenologia existencialista quanto a natureza do poder foram preocupações freqüentes do francês. Os críticos reconhecem três fases na filosofia de Foucault. A primeira é a de História da loucura (1960), em que os temas da criatividade, exclusão e repressão são centrais. Da segunda fase é As palavras e as coisas (1966), um de seus livros mais importantes. Vigiar e punir (1970) seria o último estágio de seu pensamento, em que tratou dos modos físicos e psicológicos de controle e exercício do poder.

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    Michel Foucault