Quando Nietzsche diz que, depois dos gregos, o filósofo deixa de ser o astro-rei que brilha no sistema solar da civilização para se tornar apenas um cometa imprevisível e assustador, ele quer dizer, simplesmente, que só entre os helenos o filósofo sentiu-se verdadeiramente inserido no mundo, ou seja, somente ali a filosofia conheceu sua verdadeira potência enquanto acontecimento social e político. Mas ela jamais deixou de ser este acontecimento, mesmo revestida de toda a individualidade. É isso, pelo menos, que também pensava um outro cometa (até pela brevidade de sua aparição no mundo) chamado Jean-Marie Guyau. Sim, este filósofo francês, que o próprio Nietzsche tanto admirou, jamais entendeu a filosofia e nem mesmo a arte como uma coisa isolada, desligada do campo social. Sua reflexão sociológica antecede o próprio nascimento da sociologia, influindo diretamente sobre a obra de Durkheim, que se apropriou do conceito de anomia de Guyau, mesmo criticando o aspecto positivo que o autor lhe conferia. Enfim, é permanecendo nesta mesma reflexão filosófico-sociológica, que Guyau, neste livro, entende o Futuro das religiões como uma paulatina dissolução de seus dogmas em nome da construção de uma moral cósmica panteísta. É que, para ele, um mundo em contínuo progresso material e científico tenderia a substituir os fanatismos e as intolerâncias que levam às dissensões e às guerras religiosas. A Irreligião do Futuro, então, não quer dizer fim das religiões, mas fim dos dogmatismos, abrindo a perspectiva de uma ligação real entre o homem e o mundo, já que, mais livre dos preconceitos nascidos da ignorância, este homem se daria conta de que é parte de um todo maior, parte da natureza, parte da vida esta mesma que, tal como Nietzsche, Guyau não parou de afirmar e de exaltar, mesmo quando, ainda jovem, descobriu-se perto da morte. Este cometa passou rápido demais, mas sua luz era forte e chegou até nós.

