Por isso crescemos tão pertubados
Ana Maria Machado é uma das autoras mais renomadas da literatura infantil brasileira, e sua obra Histórias à Brasileira - A Moura Torta e Outras Recontadas tem como proposta recontar lendas e contos populares com um toque de contemporaneidade, acompanhada pelas ilustrações delicadas de Odilon Moraes. No entanto, ao analisar os contos presentes no livro, é evidente que nem todos cumprem o papel de serem histórias adequadas ou instigantes para crianças. O conto que dá título ao livro, A Moura Torta, apresenta um enredo que beira o grotesco e não parece ter um propósito educativo ou lúdico para o público infantil. A violência da narrativa torna difícil entender a razão para apresentá-lo a crianças. Já O Macaco e a Viola soa mais como uma lição de como fazer chantagem do que como uma história com valores positivos. João Bobo, por sua vez, traz um relato absurdo sobre uma criança desorientada que, ainda na infância, se casa com outra criança. A moral da história, se é que há uma, se perde no ridículo do enredo. Em contrapartida, O Veado e a Onça é um dos poucos contos que se destacam pela engenhosidade do final, que surpreende o leitor com um desfecho inesperado e humorístico. Ainda assim, a história problematiza o valor da honestidade ao brincar com a ideia de enganar como estratégia. A Festa no Céu, um clássico revisitado, acaba sendo um dos contos mais inquietantes. A crueldade na vingança contra o jabuti pode ser perturbadora para crianças pequenas, levantando questões sobre a adequação de histórias que envolvem humilhação. Já Dona Baratinha, apesar de popular, tem um desfecho igualmente sombrio, desafiando a ideia de que histórias infantis precisam ter finais felizes ou construtivos. Maria Sapeba suscita reflexões sobre o sincretismo e a influência cultural, mas começa com uma narrativa que romantiza as relações entre portugueses e indígenas, o que é historicamente problemático. A Galinha que Criava um Ratinho, apesar de ter um potencial cômico, beira o absurdo, sendo difícil imaginar um propósito construtivo ao compartilhá-la. O Bicho Folhagem é inexpressivo e desprovido de encanto, enquanto Pimenta no Coruruto não só é sem sentido como também carece de qualquer mensagem relevante. No geral, embora o livro tenha o mérito de trazer à tona histórias da tradição oral brasileira, ele falha em oferecer narrativas que dialoguem com os valores contemporâneos ou que sejam adequadas para o público infantil. Muitas das histórias acabam sendo ou excessivamente violentas, ou desprovidas de ensinamentos úteis, o que levanta a questão sobre o real propósito de mantê-las vivas no imaginário popular.

