Quem foi Nikola Tesla? Se hoje essa pergunta fosse dirigida a um seguidor casual de algumas páginas de entusiastas da ciência em redes sociais, haveria boas chances de a resposta estar cheia de mitos e mistificações. Como uma boa biografia, este livro investiga muitas pistas deixadas por cartas, anotações e publicações dos anos iniciais da indústria elétrica. Ao contrário da imagem de um Tesla super-humano e benfeitor que se pinta frequentemente em publicações que carecem de referências, aqui há um retrato de um inventor genial e falho ao mesmo tempo.
Tesla foi um gênio, isso é indiscutível. Foi a pessoa que desenvolveu um novo tipo de maquinário para operar em corrente alternada nos anos 1880, desafiando a corrente contínua que era empregada até então. Foi também um grande desenvolvedor de patentes, criando muitas que foram aproveitadas no surgimento do rádio no início do século XX. Pelas descrições que deixou sobre seu processo criativo tenho uma grande suspeita de que ele era um sonhador lúcido. Na infância ele sofria com visões, tendo dificuldade de distinguir o real e o imaginário, mas esse distúrbio favoreceu a sua força de pensamento e quando adulto ele conseguia construir mentalmente mundos, pessoas e o funcionamento de máquinas novas.
Era um imigrante sérvio e provavelmente homossexual, mas com suas patentes de corrente alternada e suas palestras que mostravam possibilidades quase mágicas para a época conseguiu um lugar privilegiado na alta sociedade de NY. Infelizmente era também incapaz de autocrítica e não soube admitir que suas ideias de transmitir energia pela terra através de grandes distâncias estavam erradas. Muito se ouve de que ele queria distribuir energia sem fios e de graça para o mundo inteiro, mas ele foi praticamente um precursor da cultura de consumo em massa e tinha nítidas noções comerciais, o que não é o mesmo que dizer que sabia administrar um negócio. Suas últimas três décadas de vida foram uma luta na penúria e relativamente apagadas criativamente após o amargor de não conseguir apoio financeiro para suas invenções, de se ver pelo público como uma figura pouco confiável e de estar imerso em especulações científico-ideológicas.
Talvez não seja tão difícil de entender porque ele foi muito tempo renegado pelos livros de história. Era um homem muito à frente de seu tempo, que, preferindo ser um showman a publicar seus resultados, não soube se conformar aos padrões de uma área científica incipiente. Não era um bom cientista que confrontava suas ideias com seus resultados, mas era arrogante a ponto de se achar o mais importante inventor de todos os tempos. Talvez por ter sido imigrante, criticado (com boas razões) por editores de periódicos e evitado por investidores em tempos de especulação, bolhas financeiras e charlatões, hoje seja adotado como uma figura contracultural. Nesse aspecto Tesla é o contraponto descolado de uma ciência focada na razão e em resultados práticos, chegando ao absurdo de ser abraçado por filosofias da Nova Era.
Respondendo à pergunta inicial, Tesla era um ser humano genial e que, mesmo com tantos defeitos, com suas invenções deu o pontapé para pelo menos duas revoluções na sua área: corrente alternada e rádio. Ele era tão brilhante que todos que trabalhavam na área se mantinham bem informados sobre suas últimas invenções e tinham que ser criativos para contornar suas patentes.