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    Essa História Está Diferente - Dez Contos para Canções de Chico Buarque -

    Ronaldo Bressane, Cadão Volpato, Xico Sá, Luis Fernando Verissimo, Mia Couto, Mario Bellatin

    Companhia das Letras
    2010
    264 páginas
    8h 48m
    ISBN-13: 9788535916423
    Português Brasileiro
    3.8
    20 avaliações
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    Em Essa história está diferente, dez autores de estilos diversos recriam em prosa o cancioneiro do compositor carioca Chico Buarque. Na escalação do time organizado pelo escritor e jornalista Ronaldo Bressane, a ideia foi universalizar o imaginário do autor de Budapeste e Leite derramado. Os registros literários captados por esta antologia foram os mais díspares e inventivos: alguns contos se baseiam fielmente nos causos musicados por Chico, outros usam as canções como trilha sonora, cenário e atmosfera, outros emprestam delas a estrutura, e há os que utilizam as canções como mote.

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    Thiago Barbosa picture
    Thiago Barbosa15/03/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Essa história está diferente

    Chico Buarque é o maior compositor da música brasileira, além de ótimo escritor. As letras de suas canções são profundas, há muito de literatura ali, tanto que, recentemente, foi agraciado com o Camões, maior honraria que um autor de língua portuguesa pode conquistar. ?Essa história está diferente? é um livro que tem como proposta a composição de contos inspirados em algumas canções de Chico. Para isso, foram escalados dez renomados escritores, muitos deles estrangeiros. O compositor topou a ideia, só pediu para não usarem ?Velho Francisco?, canção que inspirou o seu romance mais famoso, o ?Leite derramado?. Há contos que se baseiam fielmente nas músicas, outros as utilizam como trilha sonora, cenário, mote, atmosfera, etc. Nem todos os contos achei bons, em alguns, não conseguir fazer a conexão, nem de forma indireta, com a música. Acho que o livro engrena mesmo de FEIJOADA COMPLETA em diante. Todos dali para frente são ótimos. Para trás, tenho ressalvas. O direito de ler enquanto se janta sozinho - esse conto tem como base a canção ?Ela faz cinema? e foi escrito pelo argentino Alan Paulus. Passa-se em Buenos Aires. A mãe viajou e deixou o pai, narrador, cuidando da filha, deixou com ele também O celular para se comunicar melhor com a garota. O homem é totalmente avesso àquelas tecnologias. Ele a levou para a escola, a moça fazia teatro, se dispôs a esperar para levá-la de volta para casa, porém a filha disse que dormiria na casa de uma amiga, o que ele acabou constatando ser mentira. Desde quando ela passara a mentir? Enquanto esperava por ela, foi jantar em um japonês e viveu uma cena inusitada. Queria ler enquanto comia, o maître informou que era proibido, um desrespeito à cozinha. Ainda se questionando se a filha mentia, ligou para o celular, quando se deparou com o toque com uma canção que jamais ouviu, lhe chamou a atenção a seguinte frase: ?Quando ela mente, não sei se ela deveras sente o que mente para mim?. O conto encerra com a filha saindo do colégio, indo para os braços do pai e apresentando o professor de português, deixando a dúvida se ela realmente anda ou não mentindo para os pais. Na verdade, existe ali uma certa dificuldade do pai em lidar com a menina já crescida, envolta aos namoricos e às descobertas da adolescência. Lodaçal- o conto tem como base a canção ?Brejo da Cruz? e foi escrito por André Sant?anna. O enredo se passa no Brejo da Cruz, local onde não há absolutamente nada, os pouquíssimos moradores são extremamente necessitados e há apenas uma cruz fincada no meio da localidade. Na canção de Chico, ?A novidade que tem/ no Brejo da Cruz/ É a criançada se alimentar de luz/ alucinados, meninos ficando azuis/ ...mas há milhões desses seres/ que se disfarçam tão bem/ que ninguém pergunta de onde essa gente vem/...são passageiros/ bombeiros, babás/ já nem se lembram/ que existe um Brejo da Cruz/... O conto faz mais ou menos o mesmo movimento. Os dois personagens são Chiquinho e Toninho. Não comeram nada, pois lá só há sapos para comer e já estão enjoados. Os garotos saem caminhando em noite de lua cheia até chegar ao maconhal. Sim! Em Brejo da Cruz tem pé de maconha. É só pegar no pé, quanto quiser, maconha é coisa que não tem preço. Ao consumirem, fazem uma verdadeira viagem, Chiquinho e Toninho em outros lugares, vivendo novas experiências, as histórias vão se misturando, fruto do efeito do fumo, basicamente. Carioca- conto que tem como base a música ?Carioca?. Foi escrito pelo jornalista, músico, ilustrador e escritor Cadão Volpato. Um homem, através de uma amiga, recebe em casa uma moça como hóspede. Ela acaba de se mudar para a cidade e precisa se estabelecer, arruma emprego. Ela se diz carioca, não é bonita e nem feia, e não parece nem um pouco ser do Rio de Janeiro. Falta-lhe o característico sotaque e a cor de praia. A convivência dos dois na casa é relativamente distante. Mas aos poucos vão se aproximando, passam a se relacionar. Eles vão tendo um relacionamento que não se sabe se terá futuro. Sempre quando ela sai da casa parece que não mais vai voltar, mas volta. Na noite da primeira transa, no meio de todo o processo, ele consegue perguntar se ela realmente é carioca. No fim das contas, descobre-se que na verdade a moça é casada, sofre com a violência do marido, encontra refúgio naquela casa, nos braços daquele homem que a abrigou. Entrelaces- conto que tem como base a canção ?Mil perdões?. A música mostra uma pessoa cheia de confiança, perdoando seu parceiro por todos os abusos que comete na relação. Quais seriam eles? Fazer mil perguntas, contar as horas das demoras do parceiro, por chorar enquanto ela chora de rir, por fim, ?te perdoo por te trair?. Ou seja, o culpado virou vítima. O conto escrito por Carola Saadreva tenta mostrar uma discussão do casal após Gustavo ter se demorado até de madruga em um jantar com a mãe e o irmão para falar sobre o inventário. Uma questão familiar. Dani não se conforma com essa demora, quer explicações, não acredita no parceiro. Por fim, acaba confessando que também saiu com uma amiga e dançou com alguns rapazes. O conto é dividido em várias cenas sobre essa discussão com versões dele e dela. E após uma desgastante briga, um deles liga o rádio e está tocando ?Mil perdoares?. Os dois dançam de rosto colado. A calça branca- conto que tem como base a canção ?As vitrines?. Foi escrito por João Gilberto Noll. Achei o conto mais desconectado com a música. É a história de uma relação homossexual entre dois homens. Um é gaúcho e foi morar no Rio. Ele vê o parceiro pela primeira vez, em frente a uma vitrine, saindo de um passeio com o filho. Os dois iniciam um relacionamento cheio de desencontros. O gaúcho conhece o garoto quando vai, meio que de supetão, visitar o namorado no apartamento onde ele morava com o garoto. A esposa dele havia sofrido com a repressão da ditadura e estava fora do país. O namorado do gaúcho teve uma morte trágica. O gaúcho deixou o Rio e voltou anos depois, reencontrando o filho no antigo namorado e até a mãe dele. Em um passeio dos três pela praia, mãe e filho sumiram no mar. O gaúcho, de sunga, pega um táxi com destino ao aeroporto. Vê uma loja de roupa, observa na vitrine uma calça branca. Compra a roupa (mas se lamenta em se desfazer da sunga que era do namorado) e a passagem para Porto Alegre, cidade com a qual vive em eterno litígio. Já na aeronave, ele percebeu que estava com a chave do apartamento no bolso. Feijoada completa- conto que tem como base a canção de mesmo nome. Foi escrito por Luis Fernando Verissimo e é um dos melhores do livro, o que reproduz com maior fidelidade a música do Chico Buarque. O conto é sobre o casal Carol e Pedro. Ela teve educação refinada, mesmo a contragosto dos pais, que achavam que o rapaz não era digno dela, casou-se com Pedro, um homem bonito e simpático. Porém, com o tempo de matrimônio, a moça foi percebendo que ele era um cara sem ambição e viveria para sempre uma vida medíocre, e ela repartiria com ele aquela falta total de perspectiva. Pedro era propagandista de um laboratório. Não passaria daquilo. Adorava o sábado, dia em que jogava futebol com os colegas de trabalho e ia para casa depois com todos eles comer a feijoada que Carol lhes preparava. Em um desses sábados, Carol estava decidida a conversar com Pedro e se separar. Não aguentava mais aquela vida, não havia dado certo aquele casamento. Mas ele acordou tão animado...ela decidiu que iria embora quando ele fosse para o futebol, deixaria uma carta. Porém ele ligou dizendo que os dois chefes foram para o futebol e iriam depois para a feijoada, pediu para a esposa uma feijoada completa, caprichada. Ela não fez, redigiu a carta, arrumou as coisas e foi embora. Neste meio tempo, Pedro ligou para o celular dela explicando que houve uma confusão, um amigo machucou o chefe e, na briga, ele defendeu o amigo, provavelmente estava sem emprego. Alguma coisa tinha que dar certo naquele dia, seria a feijoada. Já na casa de uma amiga, Carol refletiu e resolveu voltar para casa e correr com a feijoada. Foram para lá os mesmos de sempre, tudo foi perfeito. Ela não teria coragem de fazer aquilo com Pedro, ela não era um ministro. Apesar de tudo, ele sempre com carinhoso. O conto termina com Pedro perguntando o que era aquele envelope no travesseiro dele. Os fantasmas do massagista- este conto é inspirado na canção Construção e foi escrito por Mario Bellatin. É a história de um terapeuta que trabalha em uma clínica de reabilitação para amputados. A mãe dele é uma senhora que construiu uma carreira de sucesso como declamadora, ajudou a revolucionar essa função e fez muitos trabalhos exitosos. Certa vez, um agente lhe sugeriu a declamação da letra da música de Chico Buarque, Construção. Foi aí que começou o declínio da declamadora. Foi um fracasso. Ela sentiu o golpe. Foi definhando até morrer. O filho optou pela cremação. Dias depois, o rapaz foi percebendo um comportamento estranho do papagaio de estimação que tinha a mãe. O animal começou a declamar a canção, falar outras coisas estranhas. Será que a velha reencarnou no bichinho? Olhos nus: olhos- conto escrito pelo moçambicano Mia Couto que teve como base a canção Olhos nos Olhos. João Rosa é aquele cara bem resolvido, que passou por vários relacionamentos e parecia ter orgulho de saber que todas as ex sofriam pela ausência dele. Havia se separado recentemente de Clarice, vivia adiando ir na casa onde moravam para pegar as roupas. Parecia menos confiante desta vez, com medo do que poderia encontrar por lá. A atual, Adélia, sempre o cobrava para ir lá romper de vez qualquer ligação com a outra. Ele foi primeiramente pegar as roupas, depois sentiu falta dos livros. Retornou em um outro dia e a encontrou toda arrumada, pronta para sair. Lágrimas caíram de seus olhos. O conto reproduziu fielmente o espírito da música. A mulher dos meus sonhos e outros sonhos- conto que tem como base a canção Outros Sonhos, foi escrito por Rodrigo Fresán. O conto, assim como a música, mexe bastante com os mistérios do sonho, o que está por trás dele, o que pode ser indício de um acontecimento que vai se concretizar. É previsão do futuro ou sinal de que vai acontecer tudo ao contrário na realidade? Porque às vezes parece não fazer sentido? O protagonista foi gerado por uma mulher que estava em coma e morreu logo após o nascimento dele. Os dois acabavam dividindo o mesmo sonho durante a gestação. Ele cresceu fascinado por esse universo dos sonhos. Nas suas noites de sono, Laura passou a aparecer constantemente em seus sonhos. Ele se apaixonou por essa mulher do sonho, misteriosa, que lhe aparecia em várias situações distintas. Como fazer para materializar tudo aquilo? Neste ponto, o conto se aproxima muito de uma frase da música de Chico Buarque. ?Sonhei que o fogo gelou, sonhei que a neve fervia. E por sonhar com o impossível, sonhei que tu me querias?. Um corte de cetim- conto inspirado na canção Folhetim. Foi escrito por Xico Sá. Tem um enredo bastante interessante e traz o drama de um homem que perdeu a mulher na quarta de cinzas. Cruel, ela divide o corte de cetim que ganhou com o amante para confecção da fantasia de carnaval. Ela representa bem a primeira frase da canção. Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres, que só dizem sim.

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    Ronaldo Bressane

    Publicou a trilogia de contos A Outra Comédia, formada por Os infernos possíveis (Com-Arte/USP, 1999), 10 presídios de bolso (Altana, 2001) e Céu de Lúcifer (Azougue, 2003), além dos volumes de poemas O Impostor (Ciência do Acidente, 2012) e Cada vez que ella dice X (Yiyi Jambo, 2000). Ao lado de Joca Reiners Terron, Marcelino Freire e Nelson de Oliveira, co-editou a coleção Risco:Ruído (DBA, 2007), que publicou Lourenço Mutarelli, André Czarnobai, Daniel Pellizzari e Paulo Leminski, entre outros. Coordenou o projeto Essa História Está Diferente (Companhia das Letras, 2010), em que Mario Bellatin, João Gilberto Noll, Rodrigo Fresán e mais 7 escritores adaptaram ao conto composições de Chico Buarque. Foi pioneiro na divulgação da literatura brasileira na rede ao editar, entre 1998 e 2000, a Revista A, em que pela primeira vez foram publicados nomes como Emilio Fraia e Jorge Cardoso. Além de colaborações em sites e suplementos literários, participou da revista PS:SP (Ateliê, 2003) e das antologias Geração 90: Os transgressores (Boitempo, 2003), Paixão por São Paulo (Terceiro Nome, 2004), Fábulas da Mercearia - Uma antologia bêbada (Ciência do Acidente, 2004), além das seletas italianas Sex’n’Bossa (Mondadori, 2005), Lusofonia (Nuova Frontiera, 2006), Il Brasile per le strade (Azimut, 2009), da reunião hispânica 90-00: Cuentos brasileños contemporáneos (Ediciones Copé/Petroperu, 2009) e da antologia francesa Je suis favela (Anacaona, 2011). Como jornalista, foi editor-executivo da V, redator-chefe da Trip e editor da Alfa. Seu texto passou por publicações como Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, Brasil Econômico, Valor Econômico, O Globo, Jornal do Brasil, Serafina, Tpm, Vogue, Vida Simples, piauí, Pernambuco, Bravo!, seLecT, Continente, Superinteressante, VIP, Poder, Bazaar, 4Rodas, MIT, Audi, Personnalité, Continuum, Rev. Nacional e S/Nº, entre outras. Também co-dirigiu o documentário Só Quem É Sabe O Que É, sobre a campanha do Corinthians durante a queda do time à série B em 2008, ao lado de Phydia de Athayde e Artur Voltolini. Em 2012, Bressane lançou um romance gráfico de ficção-científica, cujo roteiro escreveu ao lado do argumentista Eric Acher e do artista Fabio Cobiaco, V.I.S.H.N.U., pela editora Companhia das Letras. A graphic novel foi indicada ao Prêmio Jabuti e a três prêmios HQ Mix. Em 2014, lançou seu primeiro romance, Mnemomáquina (Demônio Negro), uma ficção distópica ambientada em uma São Paulo futurista, e também publicou o conto Sandiliche na coleção infanto-juvenil da Cosac Naify, em volume ilustrado pela quadrinista equatoriana Powerpaola. No mesmo ano traduziu os romances O corpo em que nasci (Rocco) e Androides sonham com ovelhas elétricas? (Aleph). Seu blog, que reúne textos jornalísticos mais recentes bem como links para livros e ficções, é o Impostor.

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    Ronaldo Bressane