Doze Noturnos da Holanda - E outros poemas

    Cecília Meireles

    Global
    2014
    64 páginas
    2h 8m
    ISBN-13: 9788526018952
    Português Brasileiro

    Os poemas de Doze noturnos da Holanda nos convidam a uma jornada de alta introspecção em que o eu lírico se questiona na tentativa de situar-se no mundo. Escritos na Holanda, estes versos inesquecíveis não deixam de ser, também, uma viagem existencial em que o poeta vasculha suas múltiplas identidades, sempre disfarçadas ora em zonas de sonho e penumbra, ora em conscientes e imprevistas iluminações. A noite, que é apresentada como personagem logo no segundo poema e permeia quase todos os outros ao longo do livro, é o pano de fundo cuja expressão maior é esta ânsia, tão humana, de tornar eterno o instante, e o tempo presente um acontecimento transfigurador. Porque, para Cecília Meireles, a noite é uma das traduções da eternidade e do infinito que nos rege, e somente ela guarda a "memória do universo".

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    Everton Vidal picture
    Everton Vidal05/03/2021Resenhou um livro
    3 (Bom)

    A temática da viagem é central na poesia de Cecília. É, inclusive, o nome do seu primeiro livro da fase madura, onde esse conceito, e ao longo dos seus primeiros livros, toma a forma de uma fuga ou evasão (do tempo e da vida fugaz, em busca do atemporal, do absoluto, do mar). Em Doze Noturnos da Holanda ela toma a forma de uma busca introspectiva. A Noite é um personagem que “não é simplesmente um negrume sem margens nem direções”, “possui claridades” e leva o eu-lírico por uma jornada subjetiva (ou psicológica), incluso espiritual, em busca de autoconhecimento, através do afastamento do mundo, da matéria (a lá platonismo) e seus prazeres terrenos. O fim, encontrado no poema doze, um dos mais lindos, profundos e até proféticos de Cecília, é a imagem do afogado, cuja transfiguração revela as belezas do mundo através do fluir do tempo. “Sem podridão nenhuma, jazerá um afogado nos canais de Amsterdão. E eu sei quando ele caiu nessas águas dolentes. Eu vi quando ele começou a boiar por esses líquidos caminhos. Eu me debrucei para ele, da borda da noite, e falhei-lhe sem palavras nem ais, e ele me respondia tão docemente, que era felicidade esse profundo afogamento, e tudo ficou para sempre numa divina aquiescência entre a noite, a minha alma e as águas. Sem podridão nenhuma, jazerá um afogado nos canais de Amsterdão. Não há nada que se possa cantar em sua memória: qualquer suspiro seria uma nuvem sobre essa nitidez.”

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