Uau, essa foi uma jornada emocional. Não li o restante da série, mas me interessei especificamente pelo personagem que protagoniza esse conto, Robert Lightwood, e não tive dificuldades quanto a acompanhar esse pequeno recorte de sua vida. Não digo que funciona de maneira independente, mas pode ser entendido dessa forma, o que dá autonomia ao conto e esse é o primeiro ponto positivo de uma longa lista. Este também é um estudo de personagem - obviamente existe um enredo e ele importa, mas o que mais interessa é a exploração psicológica de Robert. A maneira com que chegamos à sua história de juventude, que se passa em 1984, também foi bem feita. Se assemelha à narrativa moldura, que é a técnica de inserir uma história dentro de outra e geralmente se utiliza da "moldura" para contextualizar a história que está dentro. No caso, não só contextualiza a narrativa "interna", como também reforça sua importância, sua mensagem e nos serve de contraste entre o Robert jovem e o Robert adulto. É possível reconhecer muito dele jovem na versão adulta, o que indica que mesmo passando por um arco de personagem, ele não deixou de ser quem é e não se tornou alguém irreconhecível. Existe consistência, é isso. Conhecemos Robert quando estudante, assim como seu melhor amigo e parabatai, Michael. A primeira cena entre eles é um momento de muita proximidade, que deixa no ar o tipo de tensão que vai se estabelecer ao longo da história entre eles. Foi sutil e eficiente. Todas as interações entre eles só reforçam essa proximidade, mesmo nos momentos de maior divergência. Os dois se complementam muito, muito bem e a natureza espontânea e honesta de Michael (que Robert chega a considerá-lo uma alma pura) se encaixa muito bem ao Robert e seus dilemas internos, sua ausência de convicções e dúvidas a respeito do amor e da fé, que durante o conto ele nunca entende bem como as outras pessoas possuem. Cada aspecto de sua personalidade tem fundamentos, porque também lemos a respeito de sua infância e de como Michael o salvou do que parecia uma rejeição sem fim. Toda a ideia de fracasso que ele alimenta internamente e tenta camuflar através do relacionamento com Maryse e do pertencimento ao grupo que tem Valentim como líder se origina no que todos (até seus pais...) consideram como primeira fraqueza, com sua reação à marca quando criança. Não é pra menos que a partir dali seu ceticismo e suas incertezas com relação a si mesmo tenham crescido e ele tenha estabelecido como ideal ser um caçador de sombras bem sucedido. Outro relacionamento fundamental para o conto é o de Robert com Valentim. É quase como um paralelo demoníaco para o que Michael tem de angelical. Se Michael é como uma salvação benigna e altruísta para Robert, Valentim representa a tentação, a manipulação de suas fraquezas e a validação que ele desejava da maneira mais distorcida possível. O fato de Robert ceder à força de alguém que poderia fornecer a ele as convicções que ele queria, mesmo que discordasse delas, só enriqueceu mais seu personagem e fez dele mais tridimensional. Quanto à última cena entre Michael e Robert... eu não estava preparada. Ainda não estou. Todo o potencial emocional dessa cena me afetou de uma forma que eu não esperava, além de fazer completo sentido quanto a tudo que foi estabelecido anteriormente. E vamos a mais um ponto positivo do conto: há muito o que dizer a respeito dele, porque as possibilidades de interpretação não se esgotam com apenas uma perspectiva. Resumidamente, Robert Lightwood é um personagem interessante pra caralho.