Nos nove ensaios que compõem Mil Vezes Mais Justo, Kenji Yoshino nos leva a percorrer os julgamentos e as diferentes noções de justiça retratadas pelo bardo: da vingança pessoal em Tito Andrônico ao processo legal de O Mercador de Veneza; do tribunal de Medida por Medida à corte dinamarquesa de Hamlet. Shakespeare entendia da natureza humana como poucos autores, tanto no que ela tem de mais sublime quanto de mais torpe, e por isso se presta tão bem ao debate moral e filosófico; mas também conhecia muito dos meandros da lei e das relações de poder, afinal, ele passou boa parte da vida entrando e saindo de tribunais, fosse como testemunha, querelante ou acusado.
Ele teve processos sobre terras em Stradford-upon-Avon; ações sobre sua herança, genealogia e a possibilidade de usar um brasão e assim ser considerado um cavalheiro; outro sobre a propriedade da madeira utilizada na construção do Globe; foi testemunha em litígios entre vizinhos... Além de ter sido também um empresário e um investidor, emprestando dinheiro para conterrâneos que também resultaram em outras tantas demandas judiciais. Praticamente todas as assinaturas que temos hoje do punho de William Shakespeare são oriundas de algum processo e isso certamente explica seu amplo conhecimento de questões legais.
O interessante do livro de Yoshino, contudo, é que ele não apenas analisa a maneira como Shakespeare escreveu sobre a própria evolução do conceito de justiça - desde a vingança privada no Império Romano até a apresentação de uma causa em tribunal e as formas de interpretação da lei -, mas também compara as situações descritas nas peças com situações reais e muito mais próximas do leitor de hoje, como a defesa de Clinton no caso Lewinsky, o julgamento de O. J. Simpson e a guerra no Iraque.
Algumas dessas comparações podem parecer forçadas, mas no geral, Yoshino apresenta um texto fluido e interessante, que advoga o Império da Lei e nos apresenta uma nova forma de compreender os mundos criados pelo bardo. Recomendado, sem dúvida.