[Romances Exemplares, #19] Durante o exilio, em 1954, numa aldeia do Uzbequistão, que os médicos descobrem em SOLJENITSINE a terrível doença cuja experiência enforma o romance “O Pavilhão dos Cancerosos”. Doença que viria a curar-se, graças a uma regeneração surpreendente. O confronto do homem com a doença versão contemporânea, do – fatum clássico – permite a SOLJENITSINE um extraordinário desvendar da alma humana. A hora que ele escolhe para situar os seus personagens é em si mesma geradora de profundas revelações. Com efeito, a acção passa-se em 1955, nos primeiros anos da destalinização. Começara, então, no âmago das consciências, um perturbador debate que não terminou ainda. Que é que faz viver os homens? Ou, melhor, que é que os torna “vivos”? A interrogação lembra SOLJENITSINE aos seus contemporâneos não permite «respostas feitas», sobretudo quando a morte se aproxima e é reencontrada a solidão que a vida em grupo ilude. Mas esta obra, que fala de doença e de morte, não é um livro desesperado. Muito pelo contrário. No fundo da noite brota uma dupla e alegórica esperança. A esperança de mudar as inexoráveis leis biológicas, a de frutificar o dia e fazer aparecer um novo homem socialista e «moral». |....| O pavilhão dos cancerosos não é, nem mais nem menos, que o relato de uma espécie de purgatório na Terra, este sob a forma de hospital oncológico (no Uzbequistão dos Anos de 1950), onde, independentemente da condição social que têm, nenhum doente escapa à expiação dos seus pecados. Também os profissionais de saúde, que os acompanham nesta sua passagem, à parte da sua categoria, de certo modo se encontram na condição de arrependimento e correcção para uma vida tendencialmente pura. A alegoria ao calvário de Cristo está bem patente neste romance, que retrata os sentimentos humanos de uma sociedade profundamente materialista por regra de estado. De nada servem as leis de regime ateias e mundanas, quando, em ocasiões de extrema dor e provação, os seres humanos apenas encontram refúgio na espiritualidade e naquilo que, por excelência, os reverte à sua essência de humanos: o humanismo metafisíco com o seu Bem e o seu Mal. Tendo, o autor, passado por semelhante situação, de tal resulta, por experiência própria, uma narração intensa de realismo e constrangedora nas suas conclusões. Fruto de uma vivência especial, por dentro do referido ambiente, espera-nos, neste livro, uma crítica subtil ao regime soviético ou a todos os regimes totalitários e ditaturiais do mesmo género, à falta de solidariedade que sempre acompanhou o Homem, em situações de crise e convulsão social extrema e ao estado de graça no âmbito da boa saúde, que para sempre se pensa possuir... ==== https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Pavilhão_de_Cancerosos
O Pavilhão dos Cancerosos (Colecção Prémio Nobel #2) - Cancer Ward
Alexandre Soljenitzine, Alexander Soljenítsin, Alexander Isaevitch Solzhenitsyn, Aleksandr Isaevitch Solzenicyn
[Lisboa] Publicações Dom Quixote
1973
640 páginas
21h 20m
ISBN-1: 0
Português
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