A bíblia e as religiões judaico-cristãs tem muito a nos ensinar, negar essa realidade é optar pela miopia moral. Karnal, majestoso pela retórica, exibe em Pecar e perdoar o contexto histórico e simbólico de vários trechos e passagens bíblicas, equiparando-as com os sete pecados capitais e suas virtudes respectivamente opostas, em uma narrativa poética e bem referenciada como é de se esperar do professor da Unicamp.
O livro me fisgou pela forma romanceada que o autor descreve as diversas personagens bíblicas e do entorno religioso católico – como santos e santas – sempre mostrando seus adjetivos de forma ímpar, diferente do que vemos nas literaturas religiosas. Salomão, Noé, Jó, Caim, Adão, São Francisco, Santo Antão e tantos outros são apresentados por Karnal de forma demasiado humanas. Falhos e fadados ao pecado como qualquer um que já caminhou nesta terra, seja rei ou plebeu.
Relacionar os pecados com as passagens dos livros bíblicos e os andares do inferno girone de Dante são outra sacada incrível que o texto nos fornece. Munido de sua ironia clássica, Leandro Karnal toca em nossas feridas mais profundas, exemplificando nossos atos de ira, preguiça, a vergonha pela inveja e a preferida de Lúcifer, a sempre presente vaidade, coeva mesmo nos mais nobres homens e evangelistas, da qual somente Cristo se manteve imaculado com relação a ela e a qualquer outra forma de pecado.
Apesar de homogêneo em qualidade, a coluna vertebral do livro é justamente o que reside em seu nome: Falhar e se redimir. Todo pecado merece perdão? Será meu o papel de algoz para condenar o ato hediondo? Sou mais feliz se perdoo sempre ou me torno tolo? Estas e outras reflexões são tratadas nas 200 páginas da obra que, ainda que modesta em tamanho, não tem menos profundidade que qualquer clássico literário. Após esta leitura e somado as diversas horas ganhas assistindo aos videos de Karnal posso inferir com total certeza que o autor se fez um grande influente nas veredas que sigo pelo entendimento da religião e sua importância na construção da sociedade ocidental, fomentando em mim um profundo respeito e admiração pela teologia de forma ainda não apreciada por um curioso inveterado como eu.
Desejo a todos uma ótima leitura, sobretudo a indicação vai para os meus amigos ateus, céticos, humanistas e agnósticos, que muitas vezes inflamados pelo desejo de criticar e subjulgar a fé alheia, optaram por olhar somente um lado da moeda. Que a tolerância ativa seja a nossa clemência pela ignorância daqueles que ainda não descobriram o caminho da iluminação, seja pela Luz de Edson ou pela de Cristo.