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    Para antes que a gente vire pó - breviário de errância

    Ezio Flavio Bazzo

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    2011
    182 páginas
    6h 4m
    ISBN-13: 9788564898073
    Português Brasileiro
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    Longe de ser o pecado capital ou a entidade terrificante como os pastores, os rabinos, os padres, os demi filósofos, as donas de casa, os empresários “bem sucedidos” e outros ilustres moralistas costumam apregoar de dentro de suas sotainas, a inveja (cujo patrono seria Caim) pode ser o instrumento mais puro e preciso de que dispomos para identificar as malandragens instituídas, a covardia moral os privilégios descarados e as ignominias sociais. (Diga-me a quem invejas que saberei onde está instalado mais um ladrão e mais um impostor!). Daí o reconhecimento – mesmo tardio – de que Caim foi nosso primeiro herói iconoclasta, nosso primeiro homem de exceção, nosso titã e justiceiro pré-histórico, o mais macho dos homens e o primeiro sujeito a dizer audazmente um não, tanto a Deus como a toda imbecilidade e a toda neurose viciada e repetitiva que viria atormentar a família nuclear pelos séculos afora. A proposição socrática do “conhece-te a ti mesmo” gravada numa parede do templo de Delos, não é nada diante da pergunta de Caim: “por que esse babaca e não eu?”. Acusado secularmente de ser a bile negra, de cometer o primeiro crime da espécie, de ter tentado sabotar o projeto divino e de ser o patrono dos ressentidos e dos invejosos, Caim, o protagonista principal dessa anedota infame, foi apenas o bode expiatório de uma ideação educativa falida, bem como a primeira vítima tanto da soberba divina como da baixeza familiar, da ignorância dos pais e de um moralismo putrefato, abstrato e esdrúxulo. Moralismo que, aliás, vem até hoje engendrando a matriz do “cidadão perdulário”, do sujeito bonzinho e piedoso, do burocrata sórdido e mascarado, do gestor mentiroso e hienizado, do vivaldino político e enfim, do bundão vulgar e atual, conhecido e respeitado por quase todos, aquele mini estelionatário que, ainda escravo da Puta da Babilônia e em franca degenerescência se esforça para ocultar o quão insossa é a vida e para dar a impressão de ser uma alma voltada para o céu, para o social e para a paz, mas que, na ver- dade, conserva viva e latente em sua memória apenas a nostalgia da trapaça e do inferno.

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