É muito significativo que esse livro tenha demorado cerca de 30 anos para ganhar uma tradução, enquanto um charlatão como Thomas Piketty saia quase imediatamente à edição original. É por esses eventos e não pelo choramingo debiloide da esquerda que podemos captar quem de fato domina ideologicamente o cenário em nosso país. Certa vez eu comentava com um professor universitário que seria importante que víssemos também a crítica a autores como Foucault. Mas ele não me respondeu e desconfio hoje que ele simplesmente não conhecia ninguém que o fizesse. Essa crítica é ou ignorada, ou desconhecida. Eu acredito muito mais na segunda opção e creio que isso acarreta consequentemente a ignorância quase completa de autores que não são de esquerda.
Isso é um erro grave. Ler autores de direita não vai transformar ninguém em preconceituoso, elitista, ou qualquer outro termo que se queira usar. E a própria associação de termos negativos à direita já mostra também o enorme deserto de desconhecimento no qual a inteligência brasileira está instalada. Não tenho a menor dúvida que o dano causado a gerações de estudantes que pensam que podem jogar para o lado com um desprezo ensaiado autores como Von Mises, Roger Scruton e tantos outros é irreparável a curto e médio prazo. Ainda não muito tempo atrás acompanhei uma conversa em rede social em que alguém pediu uma dica de leitura sobre a questão da sexualidade moderna e recebeu a atualíssima indicação de “A origem da família, da propriedade privada e do estado” de Engels. Esse tipo de comportamento trai o abandono do pensamento a que fomos expostos. Ele trai, também , sobretudo, uma necessidade patológica de buscar sempre alinhamento ideológico com o pensamento dominante da esquerda. Temor de não ter a ladainha decorada na ponta da língua quando qualquer autoridade for nos cobrar se decoramos direito. Mas qual a relação de tudo isso com esse livro? Muito simples, nada disso acontece por acaso. Não se trata de uma questão de caráter, como se os esquerdistas pudessem ser mais corretos indicando, mesmo que a contragosto, leituras com viés diferenciado. A explicação para esse fenômeno pode ser encontrada em concepções de autores como Gramsci, Althusser, Habermas, Foucault, Sartre, Lukács. Todos eles contribuem em algum sentido para a eliminação da inteligência que dominou nosso país. Para esse comentário vou mencionar apenas a “contribuição” decisiva de dois autores, pois dentre todos que o livro trata, são os que mais conheço e me sinto a vontade para comentar, Foucault e Gramsci.
Foucault é interessante por ter protagonizado debates públicos e acalorados com marxistas. Uma de suas críticas à noção de revolução do proletariado era que não se poderiam alterar tão facilmente as relações de poder que formam o indivíduo. Este é fruto de uma formação, não é algo sobre o qual o poder se abate, ou seja, aquilo que os marxistas tomavam como ponto de partida para iniciar sua revolução simplesmente não existia. Acontece que não se pode esquecer que Foucault trava uma enorme batalha para demonstrar que a verdade não é absoluta, mas fruto da dominação de um grupo que impõem sua visão de mundo e estabelece a partir disso o que é verdade. Ou seja, seu trabalho estabelece que com a ascensão da burguesia a loucura passou a ser entendida de certa maneira, assim como a noção de sexualidade, os presídios, a medicina, etc. Essencialmente, Foucault define que a verdade que a burguesia traz é força, distorção, manipulação.
Como a base de seu pensamento é que a verdade é fruto de disputas de poder, sendo mais importante estudar como uma verdade foi construída historicamente do que o sentido mesmo dessa verdade, como ele mesmo explica em “Nascimento da Biopolítica”, fica muito difícil fazer a crítica a seu pensamento. Toda tentativa de contradizer Foucault é rechaçada como uma posição de poder apenas (em outros autores esquerdistas, o termo é ideologia). Aproveitando mais uma vez a fala do autor, dessa vez em “Nietzsche, Freud e Marx”, o que une esse três autores e define o quadro do saber desde então é que a verdade perde o valor, não é mais buscada, e torna-se importante definir como ela foi construída. Em Freud, por exemplo, segundo esse texto de Foucault, não é o trauma inicial, mas toda a cadeia de significados que foi construída inconscientemente pelo indivíduo. Foucault mostra, por exemplo, como a noção de sexualidade é uma construção burguesa, originada quando essa classe social subiu ao poder, derrotando reis e fincando bandeira e novos modos de pensar. Nesse ponto específico, gostaria de lembrar que Anthony Giddens questiona profundamente se houve mais e mais controle sobre o sexo e não o contrário. Fica difícil questionar Foucault porque se nos colocamos a favor da tese de que afinal existe mais liberdade sexual hoje do que há 100 atrás, ele rebate dizendo que o sexo precisa ser mais mencionado, que o poder incita o sexo a se pronunciar, ou seja, não liberdade, mas aparência de liberdade no momento mesmo que o domínio é maior. O grande legado de Foucault é, portanto, criar um tipo específico de “dispositivo retórico” (para usar uma expressão que certamente lhe agradaria) que coloca a posição da esquerda como incontestável. Dessa forma, há conforto e a garantia de que por mais absurda que seja a tese defendida pelos seus seguidores, o argumento da posição ideológica resolve todas as disputas.
O capítulo sobre Gramsci deveria ser lido por todos que tenham interesse em estudar a construção da hegemonia da esquerda nas universidades brasileiras. O intelectual que luta contra o sistema capitalista e está apto a dirigir a sociedade porque tem o verdadeiro conhecimento (em outras palavras, como os termos inteligência e esquerda se tornaram sinônimos); a oposição entre fascismo e comunismo (falácia que foi alimentada pela luta e morte de Gramsci contra o fascismo italiano), tese que de tão ridícula expõem a fragilidade de alguns pensadores brasileiros; a relação entre as mudanças sociais e a produção de hegemonias, entre outros temas.
A influência de Gramsci é de fato avassaladora, de modo que suas teses não são mais debatidas, mas são o solo mesmo de onde se parte para formar a inteligência brasileira. Nem mesmo Marx ou Platão ou Aristóteles tem uma importância tão grande quanto Gramsci em nosso país hoje. Qualquer tese que destoe do espectro gramsciano é entendida como ideologia, reprodução de preconceitos e descartada. É difícil estabelecer um diálogo em pé de igualdade se não formos marxistas, pior ainda se conservadores ou liberais, porque o entendimento padrão é que somos ignorantes ou vendidos. Gramsci transforma a luta contra o capitalismo em uma vocação do intelectual.
A revolução não precisa ser feita por armas. Aliás, foi a não observância de que primeiro deve-se construir uma hegemonia ideológica para depois promover as mudanças econômicas que levou, segundo os seguidores desse autor, ao fracasso de experimentos comunistas mundo afora. Trocando em miúdos, primeiro o intelectual deve disseminar seu saber, lentamente, metodicamente, formar gerações e gerações de pessoas que compartilhem e corroborem essa maneira de pensar, até o ponto em que o pensamento contrário inexista, ou esteja desacreditado. Quando todos pensarem da mesma forma, ou seja, quando a hegemonia estiver construída, as mudanças de base podem acontecer. Gramsci ajudou a criar também o mito do intelectual que luta contra o sistema fascista. Foi com sua própria vida (ele foi preso e morreu na prisão) que estabeleceu que o comunismo e o fascismo são inimigos. Onde havia uma luta pelo poder, uma disputa, todos passaram a ver uma diferença de natureza, afinal se ambos, comunismo e fascismo, fossem semelhantes, Gramsci não teria sido preso e morto. É o típico caso de alguém que contribuiu para a causa até mesmo depois de sua morte, um sucesso absoluto. A contribuição de Gramsci, portanto, é decisiva em muitos pontos. Ele forneceu a crença da luta entre fascismo e comunismo, de modo que a direita ficou rotulada como fascista para sempre; deu uma desculpa ao intelectual que não quer pegar em armas para a revolução, mas sonha contribuir com a causa; ensinou que o domínio mais importante de todos não é sobre os corpos, mas sobre as mentes, e que depois que todos acreditarem na verdade do marxismo, a revolução será mais simples, isso para ficar em apenas alguns temas.
O domínio ideológico da esquerda não é mero acidente. Ele foi pensado e cuidadosamente realizado. Hoje vemos uma população que é contrária à agenda progressista do governo de esquerda, mas é incapaz de contestá-lo. Ela não tem instrumentos para fazê-lo, afinal, uma vez que conhece apenas os termos e pensamentos que lhe foram transmitidos com o único objetivo de construir um consenso social. A educação como meio de transmitir ideologia, não como construção de indivíduos pensantes.
A ideologia transforma a linguagem política, substituindo a reflexão pelo clichê pronto. Isso destrói a capacidade do discurso de oposição ser recebido como realmente é. Todos os temas que ele toca foram transformados em tabu e não podem ser mencionados.Dessa forma, a reflexão é jogada para escanteio e absolutamente tudo que se vê primeiro é entendido em termos de confirmação ou não da ideologia predominante e nunca como um discurso intrinsecamente válido.
Isso explica porque um autor liberal pode reconhecer valor na crítica de um Marx, por exemplo. Esse fato ocorreu há pouco tempo ainda, e ganhou certa notoriedade: Luiz Felipe Pondé, um autor liberal, escreveu um prefácio a um livro de Terry Eagleton “Marx estava certo” e disse que o autor ainda é essencial para compreender a realidade. Foi o suficiente para esquerdistas se manifestarem de norte a sul do país. Quer dizer que um liberal como Pondé era capaz de reconhecer que Marx estava certo? Afinal nem tudo estava perdido, portanto... O episódio, apesar de pitoresco, mostra a diferença de mentalidade da esquerda e da direita, afinal. Não há problema a um liberal ou direitista reconhecer valor em Marx. Isso não vai contra sua ideologia, sua maneira de compreender e tentar explicar a realidade. Mas o contrário é absolutamente impossível.
Não veremos nunca um esquerdista dizer que Von Mises estava certo. Como se esse autor apenas criou teorias para justificar o capital, justificar a expropriação dos trabalhadores? Como dizer algo diferente da máxima de que a luta sempre será entre dominadores e dominados e cabe ao intelectual escolher o lado certo (Gramsci), que é o lado moral também, dos dominados?