Almas em desfile -

    Chico Xavier, Waldo Vieira

    FEB
    2013
    184 páginas
    6h 8m
    ISBN-17: 978-85-7328-327-3
    Português Brasileiro

    Hilário Silva procura revelar quadros diversos do cotidiano, apresentando o que ele próprio nomeia como um desfile de almas nesta obra. O autor espiritual relaciona 52 temas, trazendo a lume episódios retirados do livro da vida, mostrando ao leitor o alimento do amor e da compaixão no relacionamento humano.

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    Ângela . 29/08/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Grande confeitaria paulista, ao anoitecer. Clientela numerosa. Quando Olavo Dias, denodado trabalhador da seara espírita, se aproxima da caixa para efetuar o pagamento de certa compra, surge a atordoada: – Ladrão! Ladrão! Pega o ladrão! Pega! Pega! Alia-se um guarda a robusto balconista e agarra pobre homem, extremamente mal vestido, que treme ao apresentar grande pacote nas mãos. – Ele roubou de um freguês – grita o caixeiro, como que triunfante ao guardar a presa. Quase todos os rostos se voltam para o infeliz. O policial apresta-se para as providências que o caso lhe sugere, mas Olavo Dias avança e toma a defesa. Não é um ladrão – explica – e não admito qualquer violência. E no propósito de ajudá-lo, Olavo mente, afirmando: – E meu empregado e, decerto, retirou o pacote julgando que me pertencesse. Enérgico, toma o embrulho, devolve-o ao gerente, pede desculpas pelo engano e afasta- se com o desconhecido, dando-lhe o braço, como se o fizesse a um parente, diante dos circunstantes perplexos. Dobrando, porém, a primeira esquina, dirige-lhe a palavra, admoestando: – Ora essa, meu caro! Sou espírita e um espírita não deve mentir. Entretanto, fui obrigado a isso para defendê-lo. O interpelado mergulha a fronte nas mãos ossudas e explica em lágrimas: – Doutor, roubei porque tenho seis filhos com fome... Sou doente do peito... Não acho serviço... – Bem, bem – falou Olavo, comovido –, não estou aqui para fazê-lo chorar. Condoído, abriu a bolsa, deu-lhe o concurso possível e perguntou-lhe pelo endereço. O infeliz declarou chamar-se Noel de Souza, deu os nomes da esposa e dos filhos e informou residir nas proximidades da Vila Maria, em modesto barracão. O benfeitor, realmente sensibilizado, prometeu visitá-la na primeira oportunidade, e, finda uma semana, ei-lo de automóvel a procurar pela casinha distante. Depois de algum esforço, localizou-a. Encontrou a senhora Souza e os seis filhinhos esquálidos, mas o dono da casa não estava. Saíra para angariar socorro médico. Olavo, tocado de compaixão, fez quanto pôde pela família sofredora e, ao despedir-se, ouviu a dona da casa dizer-lhe sob forte emoção: – Um dia, se Deus quiser, Noel há de retribuir o senhor por tudo o que está fazendo... Precisando deixar S. Paulo, em função da vida comercial, Olavo recomendou os novos protegidos a diversos companheiros, e esqueceu a ocorrência. Decorridos seis meses, Olavo, certo dia, chega apressado ao aeroporto de grande cidade brasileira. Precisava viajar urgentemente, mas não tem passagem. Arriscar-se-á, no entanto, à aquisição de última hora. Retendo pequena pasta, procura na multidão um amigo que o precedera, minutos antes, com o fim de ajudá-lo, até que o vê a pequena distância, acenando-lhe a que se apresse. O problema está resolvido. Basta que apresente a documentação necessária. Avança, presto, mas alguém cruza o caminho. Sente-se abraçado numa explosão de ternura. Olavo tenta quebrar o impedimento afetivo, mas reconhece Noel de Souza e estaca, surpreendido. – Você... aqui? O amigo está humildemente trajado, mas limpo e alegre. – Sim, doutor, preciso vê-lo – confirma o interlocutor. – Agora, não – falou Olavo, contrafeito. Como se não lhe anotasse o azedume, o outro tomou-lhe o braço e arrasta-o docemente para fora do raio de visão do companheiro que o espera. – Souza, não me detenha, não me detenha... – roga Olavo, inquieto. – Escute, doutor, preciso agradecer-lhe... E como se não lhe pudesse escapar da mão, Olavo escuta-lhe a fala entediado e impaciente. Noel refere-se à esposa e aos filhos e repete frases de gratidão e carinho. Depois de alguns instantes, Dias, revoltado, desvencilha-se e abandona-o sem dizer palavra. Alcança o amigo, mas é tarde. O avião não pudera esperar. Acabrunhado, vê, de longe, o aparelho de portas cerradas, na decolagem. Bastante desapontado, busca Noel de Souza para ouvi-lo com mais atenção, já que perdera a viagem. Entretanto, por mais minuciosa a procura, não mais o encontra. Daí a quatro horas, recebe trágica notícia. O aparelho em que disputara lugar caíra de grande altura, sem deixar sobreviventes. Intrigado, regressa a S. Paulo e corre a visitar a choupana de Noel. Quer vê-lo, abraçá-lo, comentar o acontecimento. Mas, no lar modesto de Vila Maria, veio a saber que Souza desencarnara dois meses antes.

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