As afinidades -

    Reinaldo Montero

    Companhia das Letras
    1999
    128 páginas
    4h 16m
    ISBN-10: 8571649464
    Português Brasileiro

    Cuba, final do século XX. Numa cabana isolada à beira de um lago, quatro amigos na faixa dos trinta anos vivem um fim de semana insólito: uma troca de casais, programada dias antes. Cristina, mulher de Néstor, deve dormir com Bruno. Magda, mulher de Bruno, com Néstor. Na hora de passar à prática, porém, nada ocorre como se esperava, e vêm à tona atritos e desencontros de toda ordem: sexuais, políticos, morais. Para complicar as coisas, Néstor é um superior hierárquico de Bruno, que tem seus dias contados na burocracia cubana, em processo de reformulação para se adaptar aos "novos tempos". Todas as fraturas de uma sociedade em crise expõem-se entre as quatro paredes da cabana. Nesta novela polifônica em que cada fragmento é narrado do ponto de vista de um personagem, nada é previsível e seguro. Os indivíduos rejeitam a camisa-de-força dos estereótipos. Assim como o humor - corrosivo, cruel, irresistível -, o próprio desejo sexual age como uma força obscura que subverte qualquer pretensão à ordem e ao repouso.

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    jota 1125/01/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Troca de casais e de rancores...

    Na apresentação de As Afinidades (1999) para os leitores brasileiros o crítico José Geraldo Couto destaca as qualidades do livro do escritor, dramaturgo e roteirista de cinema cubano Reinaldo Montero. E lembra que sua trama básica foi inspirada no clássico alemão As Afinidades Eletivas (1809), de Goethe, o que não é pouca coisa. Transportada para a Havana do final do século XX a narrativa bem que poderia se assemelhar a algumas histórias contadas por outro cubano ilustre, Juan Pedro Gutierrez, autor de Trilogia Suja de Havana e outros sucessos literários. De fato, pela quantidade de cenas de sexo e pelos inúmeros palavrões ditos ou pensados pelos personagens criados por Montero, os dois autores parecem dialogar um pouco. Mas a coisa termina por aí, porque os casais de As Afinidades – Néstor e Cristina, Bruno e Magda – têm um modo de vida e preocupações que não são exatamente as mesmas dos personagens de Gutierrez, geralmente pessoas à margem da sociedade. Falo dele porque conheço a literatura cubana praticamente apenas através de suas obras (mas também li Leonardo Padura e José Latour, um livro de cada autor), que têm trechos que beiram a pornografia, mas que são literatura mesmo. (Pornográfica é a vida sob qualquer tipo de ditadura.) Digamos assim que muito mais do que com grana, sexo ou comida, que parecem ser as molas que movem o mundo dos personagens de Gutierrez, os dois casais de amigos reunidos num final de semana numa cabana à beira de um lago para praticar a troca sexual de parceiros estão preocupados muito mais com questões morais, políticas, econômicas e, claro, sexuais (além do sexo físico apenas). Mas as coisas não correm exatamente como eles haviam planejado: em vez de prazer ocorre o desencontro entre corpo e espírito, um mal-estar que percorre todo o final de semana e que possivelmente continuará após a volta dos quatro para Havana. Porque Néstor e Bruno não são exatamente amigos íntimos. Dentro da burocracia cubana, o primeiro é chefe do segundo e a manutenção do emprego de Bruno numa nova estrutura depende em grande parte do próprio Néstor. Cristina e Magda transam com os homens e também uma com a outra. Mas não buscam ou não conseguem prazer nessa relação física porque se detestam. Uma pensa que a outra é uma bruxa ou uma puta. E assim por diante. E com isso As Afinidades não funciona de modo algum como estimulante sexual como outros livros podem fazer; sua leitura pode ser até broxante, enfadonha, depende. Porque mais do que com os corpos em si, Montero está preocupado em desvendar a mente de seus personagens. Quase não há referências à situação política da ilha de Fidel, mas o seguinte trecho mostra bem as divergências entre os personagens, por extensão entre os apoiadores da ditadura cubana e os dissidentes. É Magda, a mulher de Bruno quem fala, melhor, pensa: “(...) o desastre político da esquerda vai fazer do sonho um sinônimo de disparate, e esse desastre ainda conseguiu que todos sintamos na boca um sabor de hipocrisia, não de heroísmo, e (...) se vocês, os esquerdosos de profissão, não entenderem isso, vão acabar de destruir o pouco que resta de pé, que é quase nada.” Não custa lembrar que 1999 foi o ano em que Bill Clinton expandiu o embargo comercial a Cuba: então o ar em Havana, que para os dissidentes nunca foi muito respirável mesmo, deve ter ficado bem pior... Lido entre 12 e 20/01/2020. Minha avaliação: 3,7.

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