Patrick Modiano é um autor difícil de ser lido, apesar de toda a aparente simplicidade abordada em seus livros, e ler 'Ronda da Noite' foi um grande desafio, ainda mais levando em consideração o fato de esse ter sido o terceiro dele que li.
As conhecidas caminhadas por Paris estão aqui, assim como os devaneios quase que desenfreados e as lembranças da França na Segunda Guerra Mundial, mas a maneira como o autor trabalha com o costumeiro enredo em 'Ronda da Noite' causa muito estranhamento, e não é uma boa porta de entrada para quem irá lê-lo pela primeira vez.
Temos um personagem não nomeado (a questão da identidade) que vive em tempos de caos, pois a França não é mais considerada Cidade-Luz (a França da 2ª Guerra Mundial). Nosso protagonista vive imerso em pensamentos e devaneios (as memórias do passado), questionando o porque de sua vida não ter dado certo, ou tê-lo levado até onde se encontra (a moral, também trabalhava pelo autor, como sempre). Seria mais livro incrível e simples, porém poderoso, se não fosse pela técnica inicial.
Nas 60 primeiras páginas todas as informações são jogadas ao leitor, sejam elas pensamentos, nomes de personagens ou lugares, ou então o tempo, se presente ou passado. Absorvemos todas as informações, mas não sabemos o que fazer com elas. Eu particularmente reli as 60 páginas duas vezes para tentar me localizar, mesmo sabendo que essa era a intenção do autor. Um leitor menos experiente ou impaciente certamente abandona o livro nessas páginas.
Mas as respostas vêm? O leitor vai descobrindo aqui que o protogonista tem codinomes (a mesma questão da identidade), assim como nos apresenta a sangrenta, pobre e suja Paris (a mesma França da 2ª Guerra Mundial). Os pensamentos e devaneios (as memórias do passado) explicam muita coisa e trazem frescor e alívio ao leitor, que não se encontra mais perdido, diferente do personagem, que se questiona aqui e ali como é ser um traidor, um alcaguete, como ele mesmo se denomina (a mesma moral).
'Ronda da noite', por conta da própria construção de enredo e tamanho, não é o tipo de livro que permite saber muita coisa, até porque faltam poucas páginas e ainda não chegamos a tudo o que é revelado na sinopse. Vagamente falando, é sensato dizer apenas que o livro fala sobre um homem que trabalha ao mesmo para a Gestapo e para a Resistência, durante a Segunda Guerra. Um plot incrível!
Enfim, parece que o livro é dividido em duas partes, uma ruim e confusa - e enganosamente necessária - enquanto a outra é fluida, limpa, serena até. Um livro de Modiano que leriamos e identificaríamos de longe, sem sequer consultar o nome do autor na capa. A técnica usada pelo autor, embora com boa intenção, não foi muito agradável, nem sufocante no bom sentido ou que atiça a curiosidade do leitor. Pelo contrário: entedia, cansa, chateia.
Quando as coisas são esclarecidas, o leitor fica, sim, chocado, não por conta do bom mistério, mas por conta da satisfação em saber que as páginas ruins passaram e que, mesmo com pouco mais de 30 páginas, enfim entenderemos a confusão inteira. E as 30 páginas serão poucas para satisfazer o leitor que encarou outras 60 esperando mais coisas.
Modiano já escreveu outros livros com o conhecido mistério sem precisar ser difícil, confuso e incompreendido, e, embora 'Ronda da Noite' seja um bom livro, não é o melhor, muito menos o primeiro a ser lido por quem quer conhecer o autor. Talvez a última obra, quem sabe. 'Dora Bruder', principalmente, e 'Para você não se perder no bairro', por exemplo, são muito bons, que mexem com o leitor e faz querê-lo correr para a livraria e comprar mais um livro de Modiano.
Mas com este não. Com este livro, o seu segundo publicado, Patrick Modiano mostra que é o bom autor que eu conheço, mas com ideias que precisam (talvez foram) lapidadas para encontrar a escrita ideal que eu apreciei. A fórmula, o enredo, o esqueleto está lá, como em todos os livros, o que mudou foi a técnica. Simples assim.
Esta resenha faz parte do projeto 'Lendo Nobel'. Mais em: