A impossibilidade do alcance da verdade, pelo menos enquanto tal foi convencionada. A linguagem, a gramática e sua função rompidas na forma em que foram concebidas, remetendo e contribuindo para a manutenção daquela metafísica que Nietzsche viria a superar com o martelo num outro momento de sua filosofia. Enfim, os textos que compõem este belo livro trazem as reflexões de e sobre Nietzsche acerca da verdade e da linguagem. O questionamento de Nietzsche sobre a impossibilidade de uma adequação da metafísica e da linguagem resultam num quebrantar das condições necessárias para uma teoria da verdade como correspondência. A forma com a qual se habituou estruturar gramaticalmente a linguagem acabou por resultar num modo específico de classificação das coisas, das experiências, dos fenômenos. Daí que se chega num ponto em que não há fuga, pois se restringe os aspectos do mundo e os da linguagem, vez que dependentes entre si. Alguns equívocos são gerados com tal forma de se estabelecer a linguagem enquanto "dizer as coisas", pois a metafísica se encaixa com facilidade em tal estrutura, tornando-a insuperável. Eis que Nietzsche parte de tal constatação para evidenciar a necessidade de superação da metafísica também pela linguagem, pois aquela enquanto ancorada nesta e não havendo um rompimento de base acaba por perpetuar uma dogma irrefletido, impedindo uma nova visão de mundo. Oito são os autores da obra, cada qual responsável por um capítulo que aborda uma vertente diferente sobre o mesmo ponto em comum que embasa o livro. "Nietzsche e o problema da linguagem: a crítica enquanto criação", "Ser uma experiência para si próprio: como tornar-se um espírito livre?", "Nietzsche acerca da persuasão wagneriana", "Verdade e sociedade: algumas considerações sobre Nietzsche e Montaigne", "Linguagem e moral em Nietzsche", "Nietzsche: crítica à metafísica como crítica à linguagem", "Lógica e retórica no jovem Nietzsche" e "Reflexão e gramática filosóficas em Nietzsche" são os capítulos. Todos valem e merecem ser lidos. Cada reflexão trazida sobre a obra e pensamento de Nietzsche recebe contornos próprios, mesmo quando numa abordagem aproximada de outro texto. Como mencionado no texto de André Luís Mota Itaparica, "linguagem, para Nietzsche, parece oferecer mais recursos do que o seu uso lógico parece permitir", de modo que tal autor conclui que deve se estar sempre atento "para a metafísica implícita da linguagem", não significando, porém, que "não poder sair dos limites da linguagem" resulte em "ter de se submeter à metafísica que lhe é inerente". São, na maioria, os primeiros textos de Nietzsche que acabam por abordar o tema central da obra, já que posteriormente o filósofo se debruçou mais especificamente sobre a moral. No entanto, sua contribuição para os artifícios da linguagem, da moral e da verdade, todas envoltas na metafísica, foram significativas. E é sobre tal contribuição nietzschiana que os autores de "Verdade e Linguagem em Nietzsche" lançam suas próprias reflexões. Aos que estudam Nietzsche ou questões atreladas aos conceitos filosóficos de verdade, linguagem, gramática, metafísica e moral, este é um livro indispensável!
