Contam-se muitas histórias entre brancos e índios ao longo da costa, quando se descobriu o Novo Mundo. Inúmeros encontros aconteceram e em cada um deles algo em particular se desenrolou, pois saber do outro e descobri-lo foi, para ambos, delirante aventura. E é uma dessas histórias que nos diz que naquela praia deserta de uma areia fina como pó e de mar azul, que encantava até mesmo os olhos menos sensíveis, um grupo de homens iria se deparar com o outro, num compromisso que jamais fora marcado e que mudaria suas vidas para sempre. Nem mesmo os perigos impostos pela selva e a imprevisibilidade assustadora do mar os faria recuar. E assim, a trama da vida faria com que o destino esperasse por eles.
Na Esquina do Mundo
Luiz Augusto França
Brasil, 1510
A história é narrada em terceira pessoa e se passa no ano de 1510 (pouco após a "descoberta" do nosso país pelos portugueses). Os capítulos vão alternando sua ambientação entre Portugal e Brasil (e o caminho de lá até aqui). No livro conheceremos Kaluanã e Apoema, dois jovens índios da tribo ibiaçu, a tarefa deles era caçar. Conheceremos também Diogo e Nuno, dois homens portugueses que não tinham muito o que os prendesse em sua terra natal. Certo dia, enquanto caçavam, Kaluanã e Apoema ouviram um barulho muito estranho, parecido com um trovão, mas o céu estava claro. Indagando na aldeia, eles começaram a desconfiar que o barulho poderia ser obra de um tipo estranho de gente, homens brancos que vinham do mar numa grande canoa. Ninguém nas redondezas sabia ao certo se eles realmente existiam, mas o fato é que o espírito aventureiro de Kaluanã foi despertado, e ele sentia uma necessidade enorme de ver com os próprios olhos esses homens estranhos. Já que Apoema era seu melhor amigo, acabou sendo convencido a ir junto. A dupla teria que atravessar um longo caminho da tribo até o litoral, passando por regiões bem perigosas, e será que realmente veriam esse povo estranho de pele pálida? "Aquela história havia se tornado fixação na cabeça do jovem ibiaçu. (...) - Aimberê, meu mestre, o Pajé sempre diz que o coração tem que ficar em paz, para que o olho consiga ver as coisas como elas são. Porque se não tem paz, o coração atrapalha o olho e ele não vê as coisas direito." (página 173) Longe dali, Diogo sentia que Portugal não tinha mais nada a lhe oferecer e via a vontade de embarcar numa expedição rumo ao Novo Mundo ficar cada vez maior. Mesmo sem entender nada da vida num navio, ele conseguiu embarcar em uma expedição que buscaria pau-brasil. Nuno, sendo seu melhor amigo, acabou indo junto. Uma viagem do tipo era arriscada, cheia de perigos (dentro e fora do barco, já que Diogo teria uma missão extra), e sem garantia de volta. "Para seguir em tamanha aventura será preciso um pouco de desespero e desprendimento, pois essa alma não pode ter muito o que abandonar neste cais." (página 44) Será que os quatro homens se encontrariam na praia? Será que achariam as respostas para suas inquietações? O fato é que "Na esquina do mundo" é um livro diferente de tudo o que eu já li! Eu gosto muito de livros que falem sobre momento históricos ou sobre épocas passadas, e tenho curiosidade sobre a cultura indígena (num ponto bem longe da minha árvore genealógica, tenho antepassados indígenas), Então, quando o autor entrou em contato comigo, me perguntando se gostaria de resenhar o livro dele, decidi me arriscar. No fim, quando a última palavra foi lida, o saldo foi positivo. Como já disse, a obra é diferente de tudo o que eu já li. A escrita do autor é um pouco formal, um pouco mais elaborada do que a dos livros que costumo ler, o que torna a leitura mais complicada em alguns momentos mas também poética em outros. Nos diálogos, o autor escreve as falas numa linguagem mais próxima do que imaginaríamos ser a usada na época (e confesso que as falas portuguesas eram mais fáceis de ler do que as falas indígenas). "Por certo, aqueles homens vinham de outra dimensão, de outro mundo. Para eles nenhuma explicação diferente disso faria sentido. Eles eram de uma tribo, sim, de uma tribo com a qual nunca - nem sequer em seus pensamentos mais criativos - imaginaram encontrar." (página 12) O que eu mais gostei no livro, foi que consegui ver claramente o choque entre as culturas, o medo e a curiosidade pelo novo. Pela primeira vez, pensei como deve ter sido estarrecedor, tanto para os índios quanto para os portugueses, descobrir que havia humanos morando do outro lado do mar, com uma sociedade com regras próprias, com outro idioma, com outra cor de pele. Creio que para os índios tenha sido ainda mais difícil, não só pelo fato de os portugueses (infelizmente) terem armas mais letais, mas também porque acho que as tribos eram mais isoladas uma das outras. É claro que também foi interessante saber mais sobre como eram as expedições e a vida dentro de uma embarcação em alto-mar naquela época. Sobre a parte visual: não tenho muito o que falar sobre a capa, é uma capa normal, simples; as páginas são amareladas; o espaçamento e as margens são grandes, as letras tem um tamanho bom; e há algumas ilustrações no livro. Enfim, fica a minha sugestão para quem quer um livro com uma temática diferente, uma leitura que pode ser rápida já que a obra tem pouco mais de 200 páginas. Deixo meu agradecimento ao Luiz, por ter disponibilizado um exemplar para leitura e resenha.
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