Conheci o Type O Negative por acaso numa das minhas buscas por músicas mais puxadas pro dark wave e post-punk. A primeira faixa que ouvi foi Christian Woman, me apaixonei instantaneamente (e não apenas pela música, crush no Peter Steel é evento canônico). Só que, a medida que fui conhecendo mais da banda e prestando atenção as letras, achei os temas heréticos e meio polêmicos demais. Parei de ouvir.
ANOS depois, Christian Woman voltou à minha mente de repente. Resolvi escutar de novo. Dessa vez, esbarrei em comentários no YouTube mencionando uma “reviravolta espiritual” na vida de Peter Steele, incluindo sua conversão religiosa pouco antes de morrer. Eu jamais teria imaginado qualquer ligação (positiva) dele com a fé cristã, justamente por causa da estética da banda e dos temas provocativos das letras.
Comecei a pesquisar sobre a vida dele, até descobrir a existência de "Soul on Fire", biografia escrita por Jeff Wagner. Infelizmente, o livro só estava disponível em inglês e com um preço assustador, mas dei meu jeito de conseguir o material rs. Foi a primeira biografia que li na vida, e como não estava na minha língua materna, a leitura se estendeu por três meses até eu conseguir terminar as 397 páginas. Eu não sabia exatamente o que esperar, não conhecia o autor, nem tenho um conhecimento profundo sobre música, rock gótico ou metal. O que realmente me conduziu a essa leitura foi o interesse pela espiritualidade do artista e a forma como suas músicas me fizeram sentir.
O ponto forte do livro é o retrato psicológico que ele consegue construir. A narrativa cronológica ajuda bastante a acompanhar o desenvolvimento da banda e a evolução dos álbuns; é envolvente observar cada lançamento ganhando sentido quando encaixado nos momentos específicos da vida de Peter.
Por outro lado, várias vezes me peguei perdida na linha do tempo quando o assunto eram seus relacionamentos. Talvez seja a escrita mesmo ou o idioma diferente, mas algumas passagens a respeito dos eventos afetivos ficaram confusas pra mim.
Uma crítica importante: Jeff Wagner demonstra parcialidade ao longo da narrativa. Em diversos momentos senti que ele suavizava contradições do Peter, quase justificando falas e comportamentos problemáticos sem oferecer a profundidade crítica que um leitor espera de uma biografia (eu pelo menos esperava). Isso gera uma sensação desconfortável — como se o autor estivesse defendendo o artista e, consequentemente, limitando o meu entendimento dos fatos. Biografias deveriam entregar a verdade completa, ou o mais próximo disso possível. Quando a voz do autor se mistura demais com a admiração pelo biografado, existe o risco de o leitor perder nuances fundamentais. Essa sensação de “pano passado” aparece várias vezes, principalmente ao tratar de atitudes controversas do início da carreira do Type O Negative.
Alguns trechos de Soul on Fire me atingiram de maneiras inesperadas. Eu não tenho NADA em comum com uma estrela do rock americano. Somos de mundos completamente diferentes, vivendo em outro contexto cultural, espiritual e emocional. Mas justamente por isso o impacto foi tão grande: o livro não pinta o Peter Steele apenas como um ícone, e sim como um ser humano cheio de fragilidades. O livro expõe o conflito moral interno do Peter. Apesar da estética sombria, dos temas polêmicos e aquele humor ácido que ele carregava como uma marca registrada, existia dentro dele um código de conduta quase rígido, uma noção teimosa de certo e errado. E eu me reconheci nesse paradoxo. Esse contraste me fez refletir sobre as minhas próprias buscas internas. Em algum nível, observar alguém tão complexo lutando com suas contradições, especialmente no âmbito da fé e da espiritualidade, me deu uma espécie de permissão para olhar para as minhas contradições com menos dureza e reconhecer que essas tensões fazem parte do caminho de qualquer pessoa que tenta conciliar sensibilidade, crença, identidade e arte.
Adoro ler sobre arte e processos criativos, depois de Soul on Fire cada álbum ganhou contexto, cada letra pareceu carregada de um significado novo. Agora consigo reconhecer quais eram os momentos que a banda e o próprio Peter estavam vivendo durante cada fase.
No fim, a leitura foi maravilhosa: me afetou, me confrontou, me fez pensar e me fez sentir.
"O que artistas aprendem de outros artistas não tem exatamente a ver com história ou técnica (embora haja bastante disso também); o que realmente adquirimos do fazer artístico alheio é coragem por associação. A profundidade do contato aumenta à medida que os medos são compartilhados – e, assim, desarmados –, e isso vem ao abraçar a arte como processo, e os artistas como almas afins." (Arte e Medo, David Bayles & Ted Orland)