Presente em milhões de fotografias, cartazes, vídeos, camisetas, postais, discos, livros, frases, testemunhos - fantasmas da sociedade industrial, que não sabe colocar seus mitos na sobriedade da memória -, Che nos vigia. Trinta anos depois de sua morte, sua imagem cruza gerações, seu mito acossa os delírios de grandeza do neoliberalismo. Irreverente, zombeteiro, obstinado - moralmente obstinado -, Che sempre será motivo de debate. Com um vasto material até agora inédito - fotos, testemunhos, diários -, Ernesto Guevara, também conhecido como Che é uma biografia minuciosa e detalhada, que revela na sua plenitude um homem sempre pronto para a ação. Um livro escrito com grande intensidade e dedicação, destinado a ser uma referência.
Ernesto Guevara, também conhecido como Che -
Paco Ignácio Taibo
Lista de Livros: Ernesto Guevara, também conhecido como Che, de Paco Ignacio Taibo II
Parte I: Os meios-termos não podem significar outra coisa senão a antessala da traição. * * Ao seu lado, escutam-se pedidos de rendição (dos guerrilheiros cubanos). Na memória do Che ficará gravada a fogo a resposta de um dos combatentes: Aqui ninguém se rende, cara_lho, que mais tarde será atribuída a Camilo Cienfuegos. * * Ao terminar a reunião e a entrevista, a guerrilha volta à sua necessária mobilidade. Quando se dispõe a partir, a notícia de que Eutimio Guerra está na região faz com que se mobilize. Capturado por Ciro Frias, é conduzido ao acampamento e ao ser revistado encontram sua pistola, as granadas e um salvo-conduto do exército, assinado por Casillas. Ele grita: Podem me dar um tiro, mas pelo amor de Deus não leiam isso!. (Che escreveu em seu diário:) Caiu de joelhos diante de Fidel, e simplesmente pediu que o matassem. Disse que sabia que merecia a morte. Naquele momento, parecia ter envelhecido. Em suas têmporas, via-se um grande número de cabelos brancos, coisa que nunca havia notado antes. O momento foi de uma tensão extraordinária. Fidel recriminou-lhe duramente a traição, e Eutimio só queria que o matassem, admitindo a sua culpa. Para todos nós que estávamos lá, foi inesquecível o momento em que Ciro Frias, seu compadre, começou a falar com ele: quando lhe lembrou tudo que havia feito por ele; os pequenos favores que ele e seu irmão haviam feito à família de Eutimio, e como este os havia traído, primeiro denunciando e fazendo com que os guardas capturassem e assassinassem o irmão de Frias, e depois tentando exterminar todo o grupo. Foi um discurso longo e patético, que Eutimio escutou em silêncio, com a cabeça baixa. Perguntamos se ele queria alguma coisa, e ele respondeu que sim que queria que a revolução, ou melhor, nós, cuidássemos de seus filhos. Fidel ordenou que Universo o fuzilasse. Este contaria mais tarde: Eu o teria matado dez vezes. Che aproximou-se e nós dois o carregamos e o tiramos dali, para não matá-lo diante de todo mundo. Eu o levei para longe, ofereci-lhe uma garrafa de rum, que ele foi tomando pelo caminho, enquanto dizia: Matem-me.. Nesse momento, teve início uma forte tempestade e o céu escureceu totalmente. Caiu um aguaceiro descomunal, o céu se iluminou com os relâmpagos e o barulho do trovão era ensurdecedor. Universo conta: Eu carregava um rifle e, de repente, Che saca uma pistola 22 e dá um tiro nele aqui. Po_rra , Che, você o matou! Ele caiu de costas, agonizando. E os relâmpagos iluminavam tudo. Aquilo era diabólico. Foi uma coisa horrível. * * Mais do blog Lista de Livros em: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2009/03/os-textos-em-italico-pertencem-che.html XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX Parte II: Nos dias seguintes à greve de abril, Che, em uma de suas visitas ao posto de comando de Fidel, chega acompanhado por um guia a uma cabana onde o exército acaba de destruir um comboio de abastecimento para os rebeldes. O abandono da região, os cadáveres de homens e animais, assustam o guia, que se negou a me acompanhar, alegou desconhecimento do terreno e simplesmente subiu em seu cavalo e nos separamos de forma amigável. Eu tinha uma Beretta e, com ela engatilhada e levando o cavalo pelas rédeas, entrei nos primeiros cafezais. Ao chegar a uma casa abandonada, um barulho enorme me assustou a tal ponto que quase me fez disparar, mas era apenas um porco, também assustado pela minha presença. Lentamente, e com muito cuidado, percorri as poucas centenas de metros que me separavam da nossa posição, que encontrei totalmente abandonada (...) Toda aquela cena não tem para mim outro significado senão o da satisfação que experimentei por ter vencido o medo durante um trajeto que me pareceu eterno até chegar, finalmente e sozinho ao posto de comando. Esta noite, me senti valente. Dias mais tarde, em um choque com as tropas de Sánchez Mosquera, Che fica isolado. O inimigo lançou, de início, alguns tiros de morteiro, sem maior pontaria. Por um momento, aumentou o tiroteio a minha direita, e fui inspecionar as posições, mas no meio do caminho começou também pela esquerda. Mandei meu ajudante a algum lugar e fiquei só entre os dois extremos dos disparos. À minha esquerda, as forças de Sánchez Mosquera, depois de disparar alguns obuses de morteiro, subiram a colina em meio a uma gritaria descomunal. Nosso pessoal, com pouca experiência, não conseguiu disparar, a não ser um ou outro tiro isolado, e saiu correndo colina abaixo. Sozinho, em um curral desguarnecido, vi aparecerem diversos capacetes de soldados. Um deles começou a correr colina abaixo, perseguindo nossos combatentes, que entravam nos cafezais. Disparei contra ele com a Beretta, sem atingi-lo, e imediatamente diversos fuzis me localizaram e começaram a atirar. Empreendi uma corrida em ziguezague, levando sobre os ombros mil balas em uma enorme cartucheira de couro, e seguido pelos gritos de desprezo de alguns soldados inimigos. Ao chegar perto do abrigo das árvores, minha pistola caiu. Meu único gesto altivo dessa manhã triste foi me deter, voltar sobre os meus passos, recolher a pistola e sair correndo, cumprimentado, desta vez, pela pequena nuvem de pó que as balas dos fuzis levantavam à minha volta. Quando me considerei a salvo, sem saber dos meus companheiros nem do resultado da ofensiva, fiquei descansando, entrincheirado atrás de uma grande pedra no meio da montanha. A asma, que piedosamente me havia deixado correr alguns metros, agora se vingava de mim e meu coração pulava dentro do peito. Ouvi o ruído de galhos se quebrando pelos passos de pessoas que se aproximavam. Já não podia mais continuar fugindo (que era na verdade o que eu tinha vontade de fazer), mas desta vez era outro companheiro nosso extraviado, um recruta recém-incorporado à tropa. Sua frase de consolo foi mais ou menos a seguinte: Não se preocupe, comandante, eu morro aqui com o senhor. Eu não tinha vontade de morrer, e tive a tentação de xingar a mãe dele, mas acho que não o fiz. Nesse dia, me senti covarde. * * Mais em: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2023/07/ernesto-guevara-tambem-conhecido-como.html XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX Parte III: Aproveitando uma visita de Mikoyan ao México, a direção da revolução cubana envia Héctor Rodríguez Llompart com um convite. Foi assim que os primeiros soviéticos desembarcaram em Cuba. Em fevereiro de 1960, tem lugar a visita de Anastas Mikoyan, uma das principais figuras da burocracia soviética e membro do Politburo do Partido Comunista da URSS. Che está presente quando Fidel e os outros ministros do governo o recebem e ouvem a primeira declaração de Mikoyan: Estamos prontos para ajudar Cuba e estará presente durante toda a visita, tanto em conversas privadas quanto em atos públicos. É, certamente, o primeiro a aplaudir quando Mikoyan entra em uma sala de concertos. E será, sem dúvida, um dos mais fortes partidários, dentro do governo cubano, da aproximação dos soviéticos. O que significa a URSS para Che? Quantos romances sobre a guerra antifascista e a revolução de outubro, a herdeira da mitologia socialista, a pátria de Lênin, o berço do humanismo marxista, a pátria do igualitarismo, a alternativa em um mundo bipolar para o tão conhecido imperialismo estadunidense. Nem os processos de Moscou, nem o autoritarismo policial, nem os gulags, nem a perseguição dos dissidentes, nem o antiigualitarismo burocrático, nem a economia mal-planejada, nem o marxismo de papelão e o faz-de-conta dos russos fazem parte da cultura política de Che em 1960. * Em 3 de janeiro volta à sua rotina de ministro e inaugura uma fábrica de bolachas construída com restos de equipamentos descartados e materiais conseguidos em diversos lugares. Por partes e com muito esforço. E fica contente por ser uma fábrica de bens de consumo, porque não pode haver socialismo sem se dar mais produtos às pessoas. * * Mais em: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2023/07/ernesto-guevara-tambem-conhecido-como_31.html XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX Parte IV: Che continua sendo o personagem difícil e querido, que pressionava brutalmente seus colaboradores e mantinha uma eterna reserva, muito difícil de se romper. Otulski conta: Fomos ficando mais próximos em diversos encontros, mas sem intimidade nem amizade, e nos primeiros meses tivemos alguns confrontos. Um dia, coloquei a mão sobre seu ombro em sinal de afeto e ele me disse: Por que essa confiança? Eu tirei a mão. Os dias foram passando e uma vez ele me disse: Sabe que você não é tão filho-da-pu_ta como tinham me contado? Rimos muito e ficamos amigos. * * Em 20 de fevereiro, Che responde a uma carta de María Rosário Guevara de Casablanca, dizendo que não tem ideia de que lugar da Espanha procede a sua família. Mas já faz muito tempo que os meus antepassados saíram de lá, com uma mão na frente e outra atrás, e se não conservo as minhas assim é devido ao incômodo da posição. Não acredito que sejamos parentes próximos, mas se você é capaz de tremer de indignação cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então, somos companheiros e isso é muito mais importante. * * Deve ser dito com toda sinceridade que em uma verdadeira revolução, na qual se entrega tudo, sem esperar nenhuma retribuição material, a tarefa do revolucionário de vanguarda é ao mesmo tempo magnífica e angustiante (...) Nestas condições é necessário ter uma grande dose de humanidade, uma grande dose de senso de justiça e de verdade, para não cair em extremos dogmáticos, em escolasticismos frios, no isolamento das massas. É necessário lutar todos os dias para que este amor pela humanidade se transforme em fatos concretos, que sirvam de exemplo, de mobilização... * * Mais do blog Lista de Livros em: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2023/07/ernesto-guevara-tambem-conhecido-como_54.html
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