“We are Called to Rise” é o primeiro livro de Laura McBride. Nesta obra conhecemos, através do olhar de quatro pessoas, uma Las Vegas que distoa um pouco do retrato de brilho e glamour que comumente é feito da cidade. Embora distintas, essas quatro vidas serão surpreendentemente conectadas por um acontecimento inesperado.
Primeiramente, somos apresentados a Avis, uma mulher em torno dos 50 anos que busca reconquistar seu marido, Jim, com quem tem um filho e é casada há três décadas. Numa última tentativa para reacender a chama de sua união, Avis descobre que seu esposo está apaixonado por outra mulher. Triste e abalada, ela percebe, ainda, que terá que lidar com os problemas de seu filho, Nate, o qual tem agido de maneira agressiva e explosiva desde que voltou da guerra no Iraque.
Conhecemos também Bashkim Ahmeti, um menino albanês de oito anos, inteligente e doce. Seu jeito e personalidade me conquistaram logo nos primeiros parágrafos e posso, sem dúvidas, dizer: meu personagem favorito!
Sadik Ahmeti, seu pai, é um homem rude que, por vezes, agride Arjeta, sua esposa. Quando na Albânia, Sadik presenciou o assassinato de um homem por um policial e, por isso, passou alguns anos na prisão. Traumatizado após este episódio, Sadik pediu refúgio político na América, e desde então vende – com a ajuda de sua esposa e filhos – sorvetes a bordo de um caminhão, atividade que constitui a única fonte da família. Certo dia, na escola, Bashkim recebe a tarefa de escrever cartas para um soldado, e a resposta que recebe deste desencadeia uma série de acontecimentos importantes.
Algumas páginas depois, a autora nos transporta para um ambiente hospitalar, onde está Luís Rodriguez, um jovem soldado que acorda completamente desorientado, sem saber qual a razão que o levou a tentar suicídio, dando um tiro em sua própria cabeça.
Somos ainda introduzidos à Roberta, ou melhor, ao seu trabalho voluntário como advogada numa organização que cuida de crianças e jovens. Decidi mencioná-la por último por sentir que as páginas narradas sob a perspectiva desta personagem foram apenas um artifício para dar mais volume ao livro, pois, claramente, Roberta foi enxertada na história com um único objetivo – do qual o leitor toma ciência apenas após a metade do livro –. A autora não nos deu a oportunidade de conhecer um pouco mais da vida pessoal de Roberta. Ficamos apenas com o lado profissional da personagem.
Ainda falando sobre personagens, acredito que Laura tenha pecado ao deixar alguns “pontos sem nó” no que diz respeito ao desfecho de Nate. É possível encarar o fato como uma estratégia para instigar a imaginação do leitor, deixando uma dualidade no ar. Mesmo adotando esse olhar, fico um pouco decepcionada.
Se falha nesses quesitos, Laura McBride consegue ser fantástica em sua escrita. Até então, só havia lido um livro narrado sob diferentes pontos de vista: Extraordinário, de R.J Palacio. Comparando ambas obras neste aspecto, vejo quão versátil McBride é, pois consegue, valendo-se de uma forte análise psicológica, nos fazer mergulhar em quatro universos completamente diferentes. Ela transita com maestria entre a maturidade de uma mulher que teve uma vida áspera; a inocência de um menino que, por viver num lar conturbado, é forçado a amadurecer mais rápido; a aflição e tormento de um jovem soldado que presenciou inúmeras atrocidades; a resiliência e esperança de uma mulher que não desiste de lutar por um futuro melhor para as crianças.
“We are Called to Rise”, em suma, inspira o leitor a acreditar que existem pessoas que não são indiferentes a seu próximo e que é possível extrair o melhor do pior. O fim do livro pode ser tomado como previsível, se nos atentarmos a algumas pistas dadas durante o desenrolar da trama. Contudo, isto não é uma crítica. Afinal, todos têm a chance de poderem recomeçar e viverem – talvez não para sempre, mas – felizes.