O Rio de Janeiro setecentista - A vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da corte

    Nireu Cavalcante

    Jorge Zahar
    2003
    443 páginas
    14h 46m
    ISBN-10: 857110753x
    Português Brasileiro

    Esse livro é um estudo criterioso do período de formação da cidade do Rio de Janeiro até a chegada da corte portuguesa ao Brasil. Por meio de pesquisa em arquivos públicos e privados do Brasil e de Portugal, o autor reconstituiu a vida na cidade, realizando um levantamento dos problemas urbanos e sociais. Recompõe também aspectos da vida intelectual na Colônia antes da vinda da Família Real. Nessa visão histórica a respeito da formação arquitetônica da cidade, são apresentados os condicionantes responsáveis pela fisionomia que ela assumiu até a primeira década do século XIX - no que Nireu Cavalcanti denominou como as Cinco Muralhas: os marcos dos limites físicos, políticos e ideológicos da ocupação urbana e os tipos urbanos que o habitam, assim como sua feição social, cultural e profissional. Também são reconstruídas as trajetórias de algumas profissões e de formas coletivas de agremiação responsáveis pela dinâmica do universo social na Colônia. A análise integrada por história e arquitetura permite a formulação de uma hipótese à primeira vista ousada: a vida cultural e intelectual naquela que viria a ser a sede do reino português não era precária e incipiente, como muitos afirmam. Pelo contrário, já se encontrava firmada no Rio de Janeiro uma tradição cultural própria e expressiva, embora talvez dispersa e não-sistematizada. O Rio de Janeiro setecentista contém farto material iconográfico, sob a forma de pranchas, mapas, desenhos, perspectivas e plantas, permitindo ao leitor visualizar a feição viva da cidade.

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    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa15/03/2010Resenhou um livro
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    Civilização esquecida

    Ao leitor que não se deixar intimidar por mapas e estatísticas, o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti oferece um panorama surpreendentemente completo e bem fundamentado de uma civilização quase tão deformada por mitos e mal-entendidos e pouco menos esquecida do que, digamos, as dos construtores de Tiahuanaco e Teotihuacán: O Rio de Janeiro Setecentista. Esta análise do desenvolvimento do maior centro urbano do Brasil colonial começa pelas invasões francesas do início do século XVIII e termina com a chegada da família real portuguesa em 1808, passando pelo proverbial tempo do Onça (apelido de Luiz Vahia Monteiro, combativo e autoritário governador e capitão-geral do Rio de Janeiro de 1725 a 1732). Esta reconstrução da vida carioca no tempo dos vice-reis revela uma expressiva tradição cultural local, em boa parte sustentada por músicos e artistas mulatos, muitos deles ex-escravos (como o pintor Manuel da Cunha) ou filhos de escravos (como o entalhador mestre Valentim) que jamais saíram do Brasil. Com menos de 60 mil habitantes, a cidade tinha três teatros, 23 livrarias, uma academia científica e pelo menos um prolífico inventor: o “maquinista” (engenheiro) Jerônimo Vieira de Abreu, que criou dez invenções úteis para a agroindústria. Entre as 5.960 pessoas que deixaram registros de transações imobiliárias, vendas de escravos, procurações, contratos sociais e de casamento em Livros de Ofícios e Notas, a alfabetização era razoavelmente difundida: 92,8% dos homens e 60,9% das mulheres assinavam os documentos com desembaraço. Havia uma sociedade civil atuante, na forma de irmandades que proporcionavam representação e proteção social a boa parte da população. A chegada da família real não foi uma ruptura cultural tão brusca do ponto de vista cultural. Nem do demográfico. Contrariando a tradição historiográfica de estimar em dez mil a vinte mil o número de portugueses que desembarcaram na ocasião – recentemente reafirmada, por exemplo, em "A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis", de Lilia Schwarcz – Cavalcanti somou registros de navios e passageiros para chegar a 211 pessoas em 1808 e 233 no ano seguinte, número mais condizente com a capacidade dos navios da época. O que tornou a vinda de D. João importante foi a demolição de um dos cinco principais obstáculos – “muralhas” , como diz Cavalcanti – que limitavam a cidade: a “muralha colonial”, que proibia a existência de fábricas, educação superior e comércio exterior. Outra havia sido derrubada pelo Marquês de Pombal em 1760: a “muralha jesuítica”, as vastas propriedades da Ordem que estorvavam o crescimento urbano. Derrubar a “muralha mesológica”, a insalubridade dos manguezais sobre os quais a cidade foi construída, foi um processo muito mais lento. Já a “muralha das barreiras sociais” continua a existir. E a “muralha do medo”, o muro de pedra que defendia a cidade das invasões francesas, ressurge hoje sob novas formas. O Rio colonial que emerge desta leitura não é exatamente o vácuo cultural de criminosos degredados, governados por mentecaptos decadentes, que foi popularizado por filmes como "Carlota Joaquina" e séries como "O Quinto dos Infernos". Uma visão caricata e preconceituosa, presente já no desprezo do crítico de arte Luiz Gonzaga Duque-Estrada (1888) pela arte barroca de um Rio de Janeiro receptáculo da “decadência” de uma metrópole que enviava “uma colonização de judeus e degradados, sendo o Brasil asilo, couto e homísio garantido a todos os criminosos que aí quisessem vir morar”. É um perverso mito de origem que continua a levar brasileiros a desvalorizar sua história e realizações e aceitar seu atraso e dependência como taras hereditárias e incuráveis, em vez de identificar e demolir as “muralhas” que de fato limitam seu desenvolvimento. Uma das quais é uma elite incapaz de ver que os problemas pelos quais quer culpar as origens do povo que a sustenta decorrem de sua própria resistência à democracia, à igualdade e à modernização.

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