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    Morangos mofados -

    Caio Fernando Abreu

    Nova Fronteira
    2015
    224 páginas
    7h 28m
    ISBN-13: 9788520925331
    Português Brasileiro
    4.1
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    Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo por que digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor: Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora. O que primeiro chama a atenção na leitura de Morangos mofados é a fineza de estilo, a inteligência e a percepção de Caio Fernando Abreu para tratar do que há de mais profundo no ser humano. A busca, a dor, o fracasso, o encontro, o amor e a esperança vão se delineando nesta série de contos que se entrelaçam quase como se fossem um romance. O medo e a insegurança dominam os nove contos que compõem a primeira parte do livro, O mofo, na qual está representada a vida sob a ditadura militar e a restrição de liberdade. Na segunda parte, Os morangos, vemos uma saída para os traumas impostos pela sociedade. Na última, composta de um único conto, que dá nome ao livro, Caio sinaliza uma esperança: os morangos estão mofados, mas ainda assim guardam o frescor em sua essência. Numa carta a um amigo, que pode ser lida no final deste volume, Caio conta o processo de criação do livro e o mergulho sofrido e necessário no mundo interior para dele extrair a literatura. Então, esclarece por que o último conto tem um cunho positivo: o personagem se rebelou, libertando-se do autor e decidindo o final à revelia dele. Lançado originalmente em 1982, Morangos mofados foi um dos maiores sucessos editoriais da época e até hoje é um dos livros preferidos pelos fãs de Caio Fernando Abreu.

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    Arsenio Meira picture
    Arsenio Meira03/07/2013Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    MORANGOS MOFADOS : CONTO E POESIA

    Dividida em três partes, Morangos Mofados é, ao que me consta, a obra mais conhecida de Caio Fernando Abreu. A primeira parte, intitulada O Mofo, narra a queda de valores, dos amores, a solidão, a fragilidade humana, a embriaguez, a rota solitária das drogas, o desespero, o desamor, a dor na forma mais fria e crua. A tessitura literária é precisa, quase cirúrgica; Caio vai nos apresentando uma série de personagens anônimos, que ao final se personifica em uma única pessoa: o autor? Ou, quem sabe, até mesmo qualquer um de nós. O gosto acre da derrota, cheirando a mofo, a vômito, a vodca barata, cigarros e cinzeiros abarrotados. Uma melodia melancólica ao fundo. Chet Baker? Ou Billie Holiday? São tangíveis a escuridão e os desencontros. O gosto da solidão esculpida em delírios. A alma grita, encravada em labirintos tortuosos e escuros de forma magistral. A sensação é idêntica à saída de uma montanha-russa. Os Morangos. Aqui, uma brisa inesperadamente serena invade o som e os passos dos personagens. Como se a existência de um final feliz fosse possível e breve, ou como se a vida fosse menos pesada. O doce levemente ácido do morango fundindo na língua, mostrando um belo dia de sol após uma tempestade. Mas o doce dá espaço para a acidez, transformando pedaços de magias em mágoas e solidão. Enquanto o dente fere o vermelho brilhoso do morango, na boca permanece o gosto azedo do preconceito, do medo, dos sonhos perdidos, das utopias transformadas em contas bancárias. O enjôo natural dos abusos. Dos delírios causados pelo excesso de tudo. Histórias envolventes. Escrever para não sucumbir. Resistir. hippies sem destinos, loucos, comunistas, yupes desenfreados, compulsivos, sargentos, preconceitos, estupidez, falta de amor. Dos sonhos de uma geração apodrecendo na latrina comum. Das vidas apodrecendo em latrinas fétidas comuns. A paz tão perto e tão distante que os rápidos movimentos de nossos olhos não conseguem captar. Tampouco poderiam. Morangos Mofados. A terceira parte. Leitura acompanhada pela lembrança da velha canção dos Beatles: Let me take you down/ cause Im going to Strawberry Fields/ Nothing is real/ and nothing to get hungabout/ Strawberry Fields forever. Para ler e reler sempre que a saudade ou a dor falar mais alto. Os morangos mofados, como estrangeiro em sua terra natal, ou girassóis no inverno enfeitando os pastos da Rússia, ou uma Guerra Santa O cheiro e o gosto do mofo ultrapassam toda a simbologia poética do morango. Caio construiu um universo paralelo, um refúgio, um abrigo, uma morada longe, mas dentro, do caos urbano. Uma espécie de esconderijo para se abrigar da chuva tóxica, ou dos desatinos do coração. Solitude. Solidão. Enquanto imagens explodem diante de nossos olhos cansados, ao fundo, o som dos Beatles vai levemente aumentando... As palavras pinçadas por Caio nos estendem caminhos absortos. O livro nas mãos e o pensamento longe. Para alguns, perto. Ou em lugar algum. É justo que pensem, e cada um pensa o que quer, e cada um é diferente, e no entanto, somos todos irmanados pela mesma luz inaugural. Há quem prefira ir embora com tudo, há quem seja transeunte e há quem compreenda.

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