Justo González é um dos mais conhecidos historiadores cristãos na atualidade. Cubano radicado nos EUA, suas obras têm sido divulgadas e traduzidas há algum tempo no Brasil, em especial a sua História Ilustrada do Cristianismo.
"Economia e Fé no Início da Era Cristã" é uma "história das perspectivas" (p. 14) dos primeiros cristãos quanto à riqueza e à pobreza e sua relação com a fé. Com as polêmicas atuais a respeito das questões econômicas, é salutar lançar o olhar para uma época primitiva da história da igreja e avaliar a maneira como os Pais encaravam a questão das riquezas. É evidente que González escreve a partir de uma perspectiva. Chamá-lo de esquerdista é mais do que permite a evidência deste livro, embora o uso de expressões como "linguagem sexista" (como ele chama a linguagem das traduções dos escritores cristãos da Antiguidade), o seu reconhecimento da teologia da libertação como propulsora de seus estudos sobre a ordem econômica e social dos primeiros cristãos, e uma leve crítica ao acúmulo de capital, no final da obra, indiquem uma posição mais à esquerda por parte do autor.
A obra em si tem o mérito de ser didática e simples, além de ser amplamente pesquisada. O autor aparenta ter domínio invejável de diversas línguas e cita inúmeras fontes primárias e secundárias em comprovação de suas teses. González mostra como o pensamento da igreja relacionado às riquezas evoluiu ao longo dos quatro primeiros séculos de sua história. Algumas coisas, como a veemente condenação da usura, se mantiveram como práticas condenáveis por todo esse período; outras, como a mudança sutil da condenação das riquezas em si para uma postura avessa à avareza ou ao uso incorreto das riquezas, são desenvolvimentos posteriores no pensamento dos pais da igreja.
Gonzáles divide seu livro em três partes. Na primeira, apresenta um histórico sobre o entendimento dos gregos, romanos e judeus sobre questões econômicas e sociais, focando na estruturação da economia romana. Na segunda parte, expõe o desenvolvimento do pensamento cristão sobre a economia desde os primórdios da igreja até a época de Constantino. O conceito-chave desse período é o de koinonia, que Gonzalez identifica como a ideia norteadora por trás da comunidade de Atos. Essa koinonia implica mais do que mera comunhão espiritual, mas tem como foco primário o suprimento da necessidade dos pobres por meio do entrega voluntária dos bens por parte dos mais ricos. Na terceira parte, González trata do período de Constantino e posterior, focando no ensino de teólogos renomados, que viriam a moldar o pensamento medieval, como é o caso de Crisóstomo, Jerônimo, Ambrósio e, especialmente, Agostinho.
A edição em português merece uma ou duas ressalvas. Primeiramente, quanto ao título escolhido. É fato notório que as editoras brasileiras alteram o título de alguns livros devido às idiossincrasias do leitor brasileiro. Porém, tudo tem limites. O título original é Faith and Wealth: A History of Early Christian Ideas on the Origin, Significance, and Use of Money (Fé e Riqueza: Uma História da Ideias Cristãs Primitivas sobre a Origem, Significado e Uso do Dinheiro). Na introdução, González informa que originalmente cogitou usar o título "Cristianismo e Economia nos Primeiros Quatro Séculos da Era Cristã" (p. 15). Desistiu, porém, de usá-lo porque a palavra "economia" seria um anacronismo, visto que o que os antigos entendiam por "economia" estava longe de ser o que nós entendemos. Penso que, ou os editores da obra não a leram, ou leram quando a capa já estava pronta e não quiseram modificá-la, visto que usaram a exata palavra que González evitou. Também há alguns pequenos erros de tradução (por exemplo, traduziram "subjects" como "sujeitos" ao invés de "súditos"), e um erro histórico (o autor afirma que Herodes era judeu, quando, na verdade, é fato notório que era idumeu [cf. p. 124]).
Concluindo, mesmo com as ressalvas acima, trata-se de um livro útil para se conhecer um pouco melhor o pensamento dos pais da igreja sobre um assunto que não poderia ser mais atual.