O Tronco -

    Bernardo Élis

    José Olympio
    2003
    276 páginas
    9h 12m
    ISBN-10: 8503002523
    Português Brasileiro

    No início do século passado, as disputas de poder levam ao rompimento entre os grandes proprietários de terra - os coronéis do sul de Goiás, que comandam o governo, e os do norte do estado. Um homem idealista, o coletor de impostos Vicente Lemes, luta para impedir a guerra, sonhando com uma sociedade de justiça e respeito às leis, como funcionário de um governo de coronéis, vai para o norte do estado de Goiás controlar os coronéis inimigos do governo, os Melo, justamente seus parentes. Por achá-los violentos, tenta impor seus ideais e acaba acirrando o conflito. Vendo-se derrotado, apela para a força do governo, que vem para agir de acordo com os seus interesses e não os de Vicente. Ele se vê, então, em meio a uma luta sangrenta, absolutamente selvagem. O personagem Vicente perde sua fugaz capacidade dirigente, de personagem principal. Será um mero coadjuvante em meio à barbárie.

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    Cláudio Rafael Costa20/06/2025Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    Leviatã enfraquecido x Homem lobo do homem

    Sugestão de leitura: O Tronco, de Bernardo Élis (Livraria José Olympio, 1974). Livro ficcional (com semelhanças e coincidências da vida real), publicado originalmente em 1956, que retrata uma batalha épica entre famílias no norte goiano (onde hoje seria o estado do Tocantins), no começo do século XX. Livro muito bom, embora em certos momentos o autor use e abuse de descrições, o que na minha opinião “trava” a evolução da estória (história?), mas ainda assim nos prende (especialmente no final). Arriscaria dizer que “O tronco” seria um “Os sertões”, de Euclides da Cunha, da literatura goiana: com descrição do ambiente, do homem, da batalha – ainda que sem essa distinção formal nO Tronco como em Os Sertões. Além disso, talvez a grandeza do livro seja em mostrar a ausência do Estado e a onipresença do Poder paralelo de famílias ricas, dos coronéis da República Velha no monopólio da força. Ou antes: no oligopólio da força! Nomeações para cargos públicos, incluindo e destacadamente as forças policiais e do Judiciário, o controle do Poder Legislativo (estadual na Cidade de Goiás e como representante da Província na capital federal, o Rio de Janeiro) e por tabela do Executivo municipal e estadual. E quando essa estrutura de Poder apresenta rachaduras, o resultado é um conflito que opõe a cidade em dois lados, numa briga de morte e destruição de patrimônios (público e privados), deixando qualquer estrutura de poder e autoridade (um Leviatã) subjugada a uma anarquia do “homem lobo do homem”, sem qualquer respeito à vida, à história, à ética: familiares contra familiares, prisioneiros “de guerra” sendo sumariamente exterminados sem direito a julgamento ou perdão, sem distinção entre “soldados” e civis, sem consideração de idade (crianças e idosos sofrendo tanto quanto os demais) e sem considerações por cessar-fogo: só valia a rendição (o extermínio) incondicional do outro lado. Outro ponto que merece reflexão é o retrato de servidores do Estado desmotivados, não valorizados e com salários muito baixos. O resultado disso são juízes que não querem se comprometer em julgamentos que podem desagradar certos ramos políticos que o poderiam indicar para posições melhores ou lotações menos penosas ou soldados das forças policiais, mal treinados, mal equipados e mal remunerados que sonham em virar “jagunços” para poder ter direito ao saque (espólio) ao final das batalhas. Triste realidade. Mas muito boa a leitura. Ainda mais para quem se interessa em conhecer um Brasil rural, do interior, ensimesmada com sotaques, tradições e, por que não dizer leis diferentes e próprias e esquecida da civilização urbana do início do século XX.

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