Esse é um caso de não julgue o livro pela capa! Não entendi porque o exemplar tem essa arte horrenda, lembrando algo dos Correios, um catálogo do governo, qualquer coisa , menos a história sensacional que tem dentro dele.
Fugindo dos clichês, dos amores certos e dos finais felizes, Tércia me impressionou positivamente. Primeiro porque o protagonista Pierre é um funcionário público de 28 anos desprovido do que mais vemos em livros do gênero : beleza. O rapaz também não é rico, não anda de carrões , nem é dono de nenhuma super empresa que conduza a mocinha mesmo sem interesse em um primeiro momento a gostar dele. E por sua vez seu par na história foge dos padrões de perfeição. Laila é um pouco mais velha, linda, sua professora de pintura mas acabou de descobrir que irá perder a visão, ao se despedir de seus alunos, Pierre vê agora a sua chance de que sem que ela veja sua feiura, ela se encante com outras qualidades dele.
Encanta pela diferença e pelo modo como nos é contado. Se engana quem pensa que os protagonistas a contam, na verdade, apesar de alguns capítulos narrados por Pierre, há a grande contadora da história deles : uma moça que atende no Pet Shop que eles foram comprar o labrador para Laila, um dia ele resolve se abrir com a narradora e depois disso temos uma visão completa da realidade de um amor que nasceu traçado a não ter final feliz.
Pierre se empenha com o que não tem para fazer com que Laila o ame, a leva para conhecer locais que ela nunca foi, a ajuda com as dificuldades de sua nova condição, mas talvez só ele se iluda achando que ela está se apaixonando, na visão do leitor, ou pelo menos da minha, ela aceita de bom grado um relacionamento naquela hora por saber que dali em diante precisaria de uma muleta, de alguém que lhe ajudasse a enfrentar os problemas de quem não enxerga. Há beijos, há sexo, mas nada que nos faça torcer pelo casal que passa mais depressão de seus atos e coitadismos do que o que sentimos ao ler histórias de amor que estamos acostumados. Não há beleza na história, há uma dor ao redor, há mentiras - ele não conta a ela que tira inúmeras fotos dela e nem que aceita ajuda do pai dela para sustentá-la - e um desconforto causado por um amor que não é sincero e muito menos reconhecido como tal pelo próprio casal. Sim, moram juntos, sim, eles se envolvem, mas não de uma forma suspirante, e talvez seja exatamente isso que a autora quis nos passar, a vida com seus empecilhos, com suas dores e com seus finais nem sempre felizes.
E porque a narradora se faz importante? Estaria eu soltando um baita spoiler ao dizer que ela não só faz parte da história como decide o futuro do casal?
Leiam e descubram, porque me encantei tanto com esse livro.