Mariela, Mariela-Mei, tem ela um nome já numa toada de verso. Nele encontro antecipada toda a sonoridade de sua poesia, que nos encaminha a uma “alma de estalidos” – sua alegria descompassada –, “encontro íntimo de meu corpo”, indo além, corajosamente por “partes deliciosas de mim”. Assim é ela, ele, este livro, com uma doçura e um lamento lento – e admiro este seu feitio extremamente lírico, que me remete a momentos do Romantismo brasileiro – pouco manifestados na poesia brasileira contemporânea. Mas não paramos por aí, sua porção ferina e ácida se entrevê no decorrer deste livro, como se pudéssemos acompanhar sua maturação ao sabor da passagem dos versos “e as lamúrias muitas vezes/ são todas histerias vãs”. Essa dubiedade é assim por ela, Mariela, retratada, “tem sido meu caminho todo:/ um percurso, de passagem brusca e doce”, “a doce demência do amor”, ou na “doce tormenta”. Deste modo, espécie de torção de corpo e distorção de sentimentos é que torna os poemas de Mariela tão humanos: a paradoxal “estátua comovida”, a poeta que vê “a vida em torto encanto”. E dizer, então, ser do mundo é assim: sempre à beira do amor, reconhecendo que “é pela tangente que passa o existir!”. Elisa Andrade Buzzo
