As Coisas de João Flores reúne poemas curtos sobre a natureza, simplicidade e dualidade campo/cidade. O livro tem prefácio do escritor Ademir Demarchi e posfácio de Carlos Vogt. É dividido em capítulos, pensados para explicar diferentes fases da vida de Flores. “A ideia foi a de escrever um livro de poemas que se pode ler aleatoriamente ou até mesmo, o livro, como um longo poema, dividido em seções. Em cada uma predomina uma determinada temática”, diz. A obra é dividida em seis capítulos que, por meio dos poemas, falam da própria poesia, identidade, reflexão sobre a vida, contato com a natureza, amadurecimento e finalmente sobre o amor de João Flores.
As Coisas de João Flores -
Marco Aurélio Cremasco
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Ver maisMARCO CREMASCO & AS COISAS DE JOÃO FLORES
Findo a leitura de As coisas de João Flores – excelente livro de poesias de Marco Cremasco. Fico com a certeza: tenho, na estante, uma fonte imorredoura – de onde beberei, vez por outra e sempre. O volume, apresentado em capa dura, traz um belíssimo projeto gráfico – ótimo trabalho do Eduardo Lacerda (Editora Patuá). Logo no início, leio: “APRESENTAÇÃO” bom dia senhoras senhores bom dia bom dia cães gatos ratos pássaros passo mais e mais manhãs felizes e... tristes mas tenho a satisfação de vê-los a tempo de sentir a gestação das flores não as conheço sinto-as no voo das borboletas feito anjos enlouquecidos procurando nacos de terra para descansar Marco Aurélio Cremasco nasceu em Guaraci, no Paraná. E, com “MONÓLOGO DE UM PÉ-VERMELHO”, continua sua apresentação: amanheci o céu na grama amarelecida só para comê-lo com pão e margarida já bem tarde, cansado de ser caçado por uma sombra, rejeitei as sobras de ser ninguém para ser sol na face de alguém meio urbano meio caipira tangi vinte liras fora de moda, pois a moda não é violeta, é de viola fiz-me assim para ser celestino longe do nepal caçar rimas e colher sons é uma preferência nacional nesta noite, quando muitos brigam por sobremesa, fico de tocaia no prazer de virar a mesa esfomeado, aguardo a saci astronauta para completá-la na perna que lhe falta saciado, adormeço no seio de um riacho para acordar numa cama de capim e assim tudo será como sempre foi: olhar de índio velho sorriso de curumim As coisas de João Flores se divide em seis partes: Paiol de espelhos, Arado nas tramas, Trançados do tempo, Madrigal de firulas, Arroio de estrelas e Canteiro de arrebol. O livro conta, ainda, com prefácio de Ademir Demarchi e posfácio de Carlos Vogt. Para não transcrever toda a obra, já que quase toda foi sublinhada durante a prazerosa leitura, escolherei um poema de cada parte supracitada. De Paiol de espelhos, publico “TRAVESSIA”: quieto observo paisagens silêncio quebrado por um poema pedindo passagem “SANTOS E LOUCOS” – de Arado nas tramas: fiz de tudo um pouco fui santo fui louco tive o prazer do mundo de poder encher um copo sem fundo Uma beleza! “tive o prazer do mundo de poder encher um copo sem fundo” Que bela imagem! Poesia de gente grande. De Trançados do tempo, destaco “CÁLAMO”: não sei se é o sol nem se é a chuva luz breu chama vela sem pavio não sei se faz calor muito menos frio nem mais sei se é março agosto dezembro abril (não sei o que me cala) no olhar que me conforta vejo que a curva da porta sempre abriga uma sombra amiga Os versos “vejo que a curva da porta/ sempre abriga/ uma sombra amiga” compõem a dedicatória do exemplar que me foi, gentilmente, enviado pelo autor. Retiro, de Madrigal de firulas, o poema que segue: “NA MARGEM DO RIO” sempre se apanha um peixe no olhar do pescador Aqui, outra bela imagem... Em Arroio de estrelas pesco “DA ILUSÃO DE NARCISO”: qual o limite para o desespero? esconder segredo a um espelho? E, finalmente, de Canteiro de arrebol, destaco “PESSOAS”: você grita esperneia faz caras truques caretas traça versos de espanto e nesse universo pandilheiro você, álvaro de campos eu, seu alberto caeiro Sublime, não? As coisas de João Flores é todo escrito em letras minúsculas – gosto disso, desses “atrevimentos” estilísticos. Agora, como revisor de textos que sou, digo: nenhuma vírgula fora do lugar. As coisas de João Flores é um primor. Recomendo – com força. BH – fevereiro de 2015. O texto original está aqui:
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