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    A vida porca -

    Roberto Arlt

    Relicário
    2014
    256 páginas
    8h 32m
    ISBN-13: 9788566786132
    Português Brasileiro
    4.5
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    Os leitores e leitoras encontrarão nessa obra o relato da iniciação de um adolescente, Silvio Astier, no submundo portenho, zona cinzenta de uma sociedade em que a educação burguesa perdeu as suas cores luminosas. Astier e seus amigos leem livros baratos em traduções ruins, cometem crimes por meio dos quais ascendem à cultura letrada de que foram excluídos, falsificam, blasfemam, elaboram inventos precários, etc. O conjunto dessas características se potencializa nos romances posteriores de Arlt, Os sete loucos e Os lança-chamas. Tudo isso nos dá a chave para ler a literatura argentina como o invento de uma tradição da conspiração sobre o papel: o vínculo entre o delito e a poiseis, ou melhor, uma poiesis do delito bibliográfico. A forma precisa dessa equação está na frase de Astier: "Oh!, ironia, logo eu que havia sonhado ser um grande bandido feito Rocambole e um poeta genial feito Baudelaire!" Quanto à tessitura narrativa, cabe dizer que A vida porca inovou ao dar corpo a uma espessura verbal até então ignorada na literatura argentina, a voz partilhada entre o espanhol rio-platense e a dicção dos imigrantes que passam a povoar o país vizinho a partir da virada do século XIX para o XX. O texto arltiano se escreve por meio da ausência das vozes daqueles homens e mulheres que falavam à Argentina por meio do desterro territorial e linguístico. No princípio do século passado, Buenos Aires é uma cidade cuja metade da população é constituída por gente estrangeira. A vida porca conforma, por tudo isso, um torvelinho babélico ao reunir ventos contrários a fim de aproximar Nossa América do mundo europeu. Será precisamente a essa dissonância verbal da língua moderna que recorrerá Arlt (ele mesmo filho da imigração) para plasmar a sua dicção literária. A vida porca traz um balbucio profético de tudo isso que, hoje, escutamos nas melhores páginas da literatura argentina e para além dela. E é por isso que – apesar de ser um romance do princípio do século passado – poderá surpreender o público de nossos dias ao trazer consigo o ganho estético característico de todo texto literário que segue merecendo ser lido no tempo: a inesgotável superação da normatividade da língua a partir de seu mais íntimo estranhamento.

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    Roberto Godofredo Christophersen Arlt profile picture

    Roberto Godofredo Christophersen Arlt

    Roberto Arlt (1900-1942) é um dos grandes fundadores da moderna narrativa argentina. Nasceu em Buenos Aires, no modesto bairro de Flores, e dividiu a sua vida de escritor com a de inventor. Esperava ganhar fama e fortuna através de um golpe de sorte no seu laboratório, tal como a personagem Remo Erdosain de Os Sete Loucos, nunca imaginando que a sua fama futura estava no seu trabalho como escritor. O ambiente das ruas, que Arlt tão bem conhecia, e a sua amizade com rufias, falsificadores e criminosos foram inspiração para alguns dos seus melhores textos. O seu primeiro livro, El Juguete Rabioso (1926), é o relato quase autobiográfico da sua adolescência na caótica Buenos Aires dos anos 20. Em 1929, publica aquela que será considerada a sua obra maior e ponto de viragem nas letras argentinas, o profético romance Os Sete Loucos. A sua continuação será o romance Los Lanzallamas, de 1931. A par da novelística, muitas das melhores páginas de Arlt foram publicadas em jornais, especificamente, as suas Aguafuertes Porteñas, publicadas diariamente, entre 1928 e 1935, no diário El Mundo, e, mais tarde, fruto de viagens a Espanha, as suas Aguafuertes Españolas.

    30 Livros
    15 Seguidores

    Roberto Godofredo Christophersen Arlt