Autocracia - Velocidade, poder e morte no mundo motorizado

    Woodrow Phoenix

    Veneta
    2015
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-13: 9788563137210
    Português Brasileiro

    Uma história em quadrinhos sem personagens. Apenas estradas, passarelas, viadutos, calçadas, estacionamentos: o mundo no qual reina o automóvel. Neste mundo, morrem um milhão e duzentas mil pessoas por ano vítimas de acidentes. Em Autocracia, Woodrow Phoenix mistura sua experiência pessoal, estatísticas internacionais sobre o trânsito e casos relatados na imprensa. O resultado é uma reflexão sobre nossa perigosa relação com os carros e a velocidade. Levando a linguagem dos quadrinhos a um desenvolvimento inédito, o livro é uma experiência estética e um mergulho na loucura consumista, suicida e assassina da sociedade industrial. O autor desenhou mais de 20 páginas especialmente para a edição brasileira, com paisagens de Brasília, Rio e Janeiro e São Paulo.

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    Marcelo Gabriel Delfino03/08/2015Resenhou um livro
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    Não há muito tempo atrás, e não pela primeira vez (certamente não pela última também), fui questionado porque não tenho carro e nunca sequer procurei tirar a carteira de motorista. Num mundo criado para carros e motoristas, não dirigir é praticamente um defeito de personalidade. Respondi como sempre faço: argumentando que gosto de ler no transporte público, que gosto de observar as pessoas e a cidade, mas sei que ninguém se convence com isso. Na verdade, o real motivo é que considero carros absolutamente desnecessários e perigosos. Essa HQ vai tratar dos carros, do uso que damos a eles e dos perigos que introduzem em nossas vidas a cada segundo. Não vou comentar propriamente o que o autor diz, mas fazer uma reflexão sobre alguns pontos que ele toca de passagem e mereceriam ser mais bem desenvolvidos. Impossível não notar, embora geralmente nunca pensemos nisso, como carros e a guerra tem semelhanças. A começar pela própria metáfora usada para os carros mais velozes: bólidos. O termo significa também projétil, e essa analogia não poderia ser mais óbvia. Isso fica patente no desenvolvimento aerodinâmico dos carros, cada vez mais eficientes, capazes de cortar o ar com menos arrasto, exatamente como uma bala... O carro é, por si só, uma arma. Numa disputa desigual por espaço, de um lado o frágil corpo humano, e do outro centenas de quilos de metal, plástico, vidro e outros materiais. Como se não bastasse, cada vez mais o conforto dos habitáculos dissocia o ato de dirigir de uma atividade que exige atenção ininterrupta. A indústria automobilística cria uma falsa consciência de que dirigir envolve liberdade, escolhas pessoais, que o carro é um prolongamento da personalidade de seu proprietário e que o acidente é um evento isolado nisso tudo. O acidente nos parece como a consequência negativa e totalmente evitável do ato de dirigir, que encerra uma potência exclusivamente positiva e benéfica a nossas vidas. Mas os dados do mundo sobre o trânsito e acidentes desmentem essa indústria. Se carros tem essa semelhança com armas, deveriam ser guiados com mais cuidado, mas tudo neles serve para suspender essa necessidade de concentração e responsabilidade. Cria-se um habitáculo (outro termo usado frequentemente em relação aos carros e que trai uma intenção de destruição do mundo externo...) com ar condicionado, aquecimento, música, telas de led, telefones, enfim, conforto para negar que aquele momento pode acabar mal. Sendo assim, diante de tamanho bem-estar, o acidente só pode ser encarado mesmo como uma fatalidade, nunca como algo totalmente esperado. Outro argumento que aproxima carros de armas, ou da guerra, é o uso de certos dispositivos, como o GPS. Criado inicialmente para uso militar, para guiar e localizar tropas em terrenos inimigos, é impossível não pensar que pode funcionar como metáfora para o uso dos carros em relação à cidade. Quando estamos dentro deles, protegidos, a cidade se torna de fato um território hostil. Disputamos espaço com pedestres, motocicletas, bicicletas, ônibus, carros, etc. Mas dentro do habitáculo estamos protegidos, guiados por dispositivos militares... Também não podemos esquecer o que faz o acidente para nosso corpo. Ainda na década de 1970, J. G. Ballard chamou a atenção, em “crash”, para um fenômeno curioso: o redesenho do corpo pela moderna tecnologia. Os corpos sofrem intervenções, são acrescentadas próteses, são feitas plásticas, amputações e tudo o mais que se puder imaginar como consequência dos acidentes. Acontece que tendemos a pensar que se trata de uma eventualidade, falta de sorte ou imprudência de motoristas. Mas, na verdade, essa é a primeira e real consequência de nosso uso dos carros: estamos nos adaptando a eles, sofrendo cada vez mais intervenções provocadas por nossa relação patológica e o corpo humano vai, aos poucos, mudando seu desenho. Todos nós conhecemos ou já vimos, se é que não somos nós mesmos, alguém modificado em sua anatomia por essa relação. Sem me alongar demais no comentário, Ballard mostra que esse processo é irreversível e que devemos nos apropriar dos carros de outra forma, não da forma que fazemos atualmente. Como se não bastasse, ainda devemos pensar sobre o impacto dos carros em nossa percepção da cidade. E aqui, me parece, está mais visível o seu significado. Um pouco já foi dito, porque de nada adianta urbanistas pelo mundo todo pensarem modos de reocupar o espaço público, ou seja, de fazer as pessoas fruírem a cidade se para elas o carro é um habitáculo confortável em contraste com a cidade e ela nada mais é que espaço que deve ser percorrido o mais rapidamente possível do ponto de partida até o ponto de chegada. O carro é um dos grandes responsáveis para o declínio do uso dos espaços públicos e da criação de laços afetivos com a cidade. Em primeiro lugar, a cidade é construída para os carros e não para os pedestres. Muitas das grandes cidades do mundo só podem ser percorridas de carro. A primeira consequência, mais visível, é que a cada novo veículo nas ruas, mais trânsito é gerado, e não adianta fazer mais ruas, se no fim das contas mais e mais carros serão comprados. Assim, o carro traz em seu interior, por assim dizer, uma contradição insolúvel: cada novo carro nas ruas torna o deslocamento mais lento e difícil, porque ocupa um espaço que estava vago até então, mesmo que a promessa do carro seja facilitar a vida de seu proprietário. Ora, se um dos grandes problemas das cidades atualmente é o trânsito, pavimentar mais ruas é apenas adiar um problema que não terá solução um dia, se seguirmos dessa forma. Segundo ponto: mais carros também significa mais poluição e mais doenças na população. O que sobrecarrega o já sobrecarregado sistema de saúde (em especial o de nosso país). E garanto que você nunca pensou que a cada vez que pega o seu possante para dar uma volta está dando sua parcela negativa para os problemas sociais... Para que os carros sejam mais e mais usados, e a indústria automobilística siga prosperando, as cidades vão se ampliando de forma irracional e agregando problemas maiores também. Ao contrário, se as cidades fossem verticalizadas, com transporte público eficiente (porque haveria menos necessidade de grandes deslocamentos), poderíamos ter mais áreas verdes, mais áreas públicas, menos tempo perdido entre a origem e o destino. A cada novo quilômetro de ruas e estradas construídas, menos material hospitalar, menos uma carteira escolar; e tudo isso só para que a gente diga com orgulho que tem um carro, enquanto ficamos presos em congestionamentos cada vez maiores. Ou seja, o carro é um produto que leva a humanidade para um ponto sem retorno, é expressão de nossa irracionalidade.

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