Uma lingerie ensangüentada um sapato azul de baile na areia da praia, uma adolescente bronzeada negociada com um estranho personagem saído dos subterrâneos da Europa. Um crime. História policial envolvente e sofisticada, Os Últimos Dias de Corinto mescla a vida de um caçador de exotismo, numa aventura plena de enigmas no sul do Brasil, com reflexões sobre a morte a gama, a solidão e a Literatura. Neste livro, tacto é mistério, tudo é paixão, tudo é perigo. Mestre das palavras, Alain Robbe-Grillet não se contentou em ajudar a inventar o Novo Romance - a última grande experiência literária européia com repercussão mundial-, decidiu criar também uma Nova Autobiografia, na qual passeia o homem Grillet, figura o acerto de contas com os "amigos" do Novo Romance e, acima de tudo desfilam histórias memoráveis. Sobrou lugar de coadjuvante até mesmo para D. Pedro lI. Nas páginas policiais de O Globo lido em permanência por Corinto, Michel Foucault é citado em função de um caso com um ascensorista do Hotel Lente, no Rio de Janeiro. Com Foucault e Roland Barthes, de resto, Robbe-Grillet faz suas primeiras incursões pelas salas de strip-tease de Hamburgo e de Pigalle. Entre a narrativa autobiográfica, a retomada de fragmentos da própria obra e a instalação de um novo cenário ficcional, Os Últimos Dias de Corinto mostra-se um livro atravessado pela angústia da duplicação. É literatura pura. na veia, transbordando de sutileza e de elegância nas frases inacreditavelmente belas. Uma organização clandestina, um complô internacional, nazistas em fuga, belas prostitutas a serviço da policia, um homem que encontra o seu duplo e perde a si mesmo. Elogio das ruínas, libelo contra a coerência reducionista, estética dos estilhaços vertigem de sonhos e delírios, eis um texto que apaixona, na sua clareza inefável, e derruba os clichês a respeito do obscurantismo dos protagonistas do Novo Romance. Enquanto prende pela aventura, conta uma parte fundamental da história editorial francesa deste século, com suas lutas fratricidas, escândalos, mesquinharias e golpes cegos em nome do poder. Literatura com sabor de existência. Na espiral do silencio, o medo espreita como um cão do indecifrável.


