O subtítulo do último livro do padre Renato Chiera é “Nas ‘cracolândias’ do Rio de Janeiro”. “Tenho gravadas para sempre, nos olhos, imagens de sombras, de corpos esqueléticos que se agitam e cheiram avidamente copos de plástico, absorvendo a fumaça preta do crack saindo por um orifício, na tentativa de amenizar seus muitos sofrimentos” – inicia o autor. “São crianças, adolescentes, jovens, homens, pais e mães de família, mulheres grávidas, idosos, miseráveis e endinheirados, brancos e negros, de diferentes credos, todos ‘lixo humano’ ciscando na imundície para comer ou comprar drogas. Carrego no coração o sofrimento de quem deseja assumir o drama desses escravos da pedra maldita; levo na alma o desejo infinito de ajudar esses ‘novos leprosos’, não amados por ninguém...” Há 29 anos, padre Renato, 72 anos, italiano, fundou a Casa São Miguel Arcanjo, na Baixada Fluminense. A instituição, que hoje conta com oito “Casas” no estado do Rio, Ceará e Alagoas, se dedica à acolhida e profissionalização de menores de rua. “Resgatamos milhares de crianças e jovens de zero a 18 anos e profissionalizamos mais de 45 mil adolescentes e jovens”, disse Chiera a Cidade Nova. O contato com as cracolândias do Rio abriu uma nova frente na vida de doação do padre, que por conta da sua experiência sintetizou em uma palavra o “método” do amor por esses excluídos da sociedade pós-moderna: presença. “Descobrimos que a maior tragédia não e ser pobre, mas é não ser filho, e que o grito mais profundo é a súplica pela presença de alguém que os acolha e os faça sentirem-se amados. (...) chamamos a nossa de ‘pedagogia presença’ ou ‘pedagogia dos não amados’, pois alcança algo mais profundo e fundamental do ser humano, que vai além do problema da exclusão socioeconômica, que, de fato, é apenas um aspecto da falta de amor.” No Brasil os governos federal e estaduais têm se preocupado e agido para exterminar o problema ou pelo menos refreá-lo. O fato é que nem sempre as políticas públicas adotadas são as mais eficazes. Falta uma mentalidade de abertura e escuta para buscar conselhos válidos das muitas instituições da sociedade civil e religiosas que aprenderam o árduo caminho da recuperação. Chiera não hesita em descrever situações e denunciar: “O Rio já lançou, faz tempo, uma ofensiva armada contra o problema do crack, como se fosse uma guerra (...). É difícil enfrentar um problema tão complexo quanto este, mas tenho dúvidas acerca das medidas tomadas. Eu gostaria de apresentar ao governo as seguintes perguntas: Como ele se preparou para essa ‘guerra’ deflagrada com a intenção de salvar vidas? Dispõe de pessoas que saibam acolher e amar quem foi rejeitado por todos? Preparou estruturas e infraestruturas (hospitais de desintoxicação, comunidades terapêuticas) para recuperar pessoas feridas interior e exteriormente, e para ajudá-las a readquirir o valor e, sobretudo, o sentido da vida, bem como a responsabilidade por ela? Oferece atenção e assistência às famílias despedaçadas e em profunda crise? Oferece oportunidade de estudo e de profissionalização, oportunidades de trabalho e de ter uma casa a muitas pessoas que perderam tudo e não têm mais esperança ou coragem de sonhar com uma vida diferente? Não se inicia uma ação de tal envergadura e complexidade sem antes ter preparado uma retaguarda, sem as forças e as respostas necessárias” (pp. 111-112). A resposta indicada por padre Renato é muito clara e muito simples: “Não é caçando, mas acolhendo e dando oportunidades e cidadania que se resolve tão dramático problema. Não ‘polícia e cadeia neles!’ Mas ‘família, escola, profissão, futuro e amor neles’!” (p. 114). Os escândalos veiculados diariamente no noticiário dão prova de que falta de recursos públicos, no Brasil, não seria um problema.
Presença no Inferno - Nas "cracolândias" do Rio de Janeiro
Renato Chiera
Cidade Nova
2014
173 páginas
5h 46m
ISBN-13: 9788578211486
Português Brasileiro
Edições (1)
Ver maisResenhas (1)Ver mais
Estatísticas
Avaliações
5 / 4- 5 estrelas100%
- 4 estrelas0%
- 3 estrelas0%
- 2 estrelas0%
- 1 estrelas0%

