O texto de Rafael F. Carvalho é curto, é leve e é, isto sim, sensível. Os temas do cotidiano estão ali, incluindo-se o amor (na forma, também, do desamor). A rua, a paisagem, a cidade, mas, essencialmente, uma paisagem psicológica, muito humana, próxima do comum e do ordinário de todos os homens. Um narrador (ou eu lírico?) que pulsa com certa serenidade, à espera de um futuro, mas claramente sem se desfazer da vida que experimenta. Esse texto é feito de memória e de sacadas do olhar. (Ana Elisa Ribeiro, escritora e professor do CEFET-MG).
Terceiro Livro -
Rafael F. Carvalho
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Ver maisAs impressões de um "Terceiro Livro"
Rafael F. Carvalho, autor de dois livros, lançou recentemente outro, pela Editora Patuá, que tem o singelo nome de "Terceiro Livro". Nele, estão apuradas as técnicas de composição de um livro entregêneros. É difícil dizer se seus pequenos parágrafos são minicontos ou uma poesia nanista, despida e despojada. De qualquer forma, alguns elementos estão presentes e podem ser notados de cara: a ambiguidade como em: "Estou ficando cada vez com menos cabelos. O tempo me descobre". Afinal, descobre como? Deixando-o careca, apenas, ou revelando-lhe uma ontologia do próprio tempo? Por fim, o tempo é senhor do texto, é sobre ele que se diz. Já os cabelos, aqueles que deus têm todos contados de um a um, são mera formalidade temporal. A solidão também é marca do livro e está no seguinte texto (lembrando que eles não têm nomes e as páginas não são marcadas por números: "Um vizinha, muito simpática, calada, com bonitos olhos e bonito sorriso, mora alguns andares acima de mim. Ela me cumprimenta, conversa um pouco enquanto dura a ascenção do elevadot. Os andares não apenas nos separam, o concreto e os tijolos entre os apartamentos são tão rígidos que nem eu posso rompê-los". Aqui existe uma suposição sexual. As palavras "dura", "ascenção" e rígidos fazem do texto-conto-poema algo sobre a solidão sexual, talvez uma menção ao onanismo. Mas também pode-se ser mais lírico e menos abusado, e entender o excerto como uma caixa de gatos, em que cada gato tem a sua toquinha (apartamentos). Aliás, a própria palavra "apartamento" vem de "apartar", separar. Dá para imaginar um senhor de meia idade encantado com a dona do elevador sem poder se aproximar dela. Há um quê de poesia social em: "Trabalhei em uma fábrica durante poucos dias. Conheci outro lado de mim. O que eu faço, agora, tem a lembrança. Daquelas máquinas. Daquelas ferramentas. Daquela linha de montagem. Daquele chão de fábrica". Mas por que alguém sentiria falta de um chão de fábrica? O pertencimento é chave, aqui. Por menos que se faça uma coisa, este algo nos fica marcado pelo resto de nossas vidas. O "Terceiro Livro" traz ainda imagens completamente absurdas, como: "Minhas paredes têm rodas". E o absurdo é o que mais se pode interpretar, por poder significar qualquer coisa.
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