Esse livro me envolveu totalmente. Fiquei empolgada como a muito tempo não ficava. Ele trouxe para a superfície um lado meu que estava enterrado fundo. Talvez porque os protagonistas tenham 17 e 18 anos no começo da história e, assim, a adolescente que vive em mim se identificou com eles. Talvez seja a ambientação de época, os temas trabalhados. Ou simplesmente porque a história é muito divertida.
É um importante épico que retrata um período histórico estadunidense a partir do ponto de vista de pessoas palpáveis. Dessa forma ele dialoga diretamente com outras grandes leituras recentes que fiz como Vinhas da Ira, de Steinbeck, e Amada de Toni Morrisson.
Bom, a história começa quando dois primos de origem judaica se conhecem em Nova York, no ano de 1939. O mais velho, Josef Kavalier, ou simplesmente Joe, acabou de fugir do leste europeu, onde vivia com os pais e o irmão caçula, e estudava Artes na universidade de Praga. O mais novo, Samuel Klayman, Sam, é nascido na América, filho de imigrantes, franzino, inteligente e antenado com o seu tempo.
Naquele momento, o avanço do pensamento nazista na Europa estava acuando cada vez mais a comunidade judaica. O mundo estava entrando em guerra e Joe e sua família corriam perigo. Esse começo é cinematográfico, com cenas intensas e aventuras inesperadas.
Os personagens secundários são excêntricos e únicos. A maior influência de Joe é um velho judeu lituano, seu professor de ilusionismo, chamado Bernard Kornblum. A especialidade dele é a fuga, método que o mágico Houdini usava alguns anos antes: ser amarrado, algemado, preso com cadeados, jogado, desse jeito, na água ou aprisionado numa caixa. E com segundos para se soltar e sobreviver.
A maior influência de Sam é o seu pai ausente, que tinha sido artista do teatro de vaudeville. Um judeu de origem russa, baixo, forte e musculoso, conhecido no meio artístico como "Molécula Maravilha".
Eu estou dando risada aqui sozinha só de lembrar dos primeiros capítulos enquanto escrevo... Sim gente, esse é o comecinho maluco do livro. Divertido e trágico na mesma medida. Trata-se de shows de mágica e de homens fortes do vaudeville, mas também de perseguição aos judeus, de uma guerra mundial e de diferentes perigos.
Mas...é sobre isso? Não. Tem muito mais. A questão é que o encontro entre os dois primos vai gerar uma parceria extremamente criativa e produtiva. Eles vão começar a trabalhar com uma nova arte que estava surgindo naquele exato momento: as histórias em quadrinhos. O super herói que eles vão desenvolver juntos será O Ilusionista, um defensor da justiça e combatente do fascismo no mundo. O livro, então, vai nos mostrar o surgimento e os anos dourados dos gibis, suas influências, o mundo das artes e da cultura pop dos anos 40 e 50.
Personagens criados pelo autor vão encontrar vários artistas reais: tem uma cena com Salvador Dali e sua esposa, outra com Orson Wells, e outra ainda com Stan Lee. Mas o foco é na época, no que as pessoas comuns faziam, assistiam ou liam naqueles anos de pequena recuperação da economia americana e crescentes conflitos mundiais.
Com o desenvolvimento da história, Joe e Sam vão se tornando famosos e bem sucedidos. E cada vez mais reais, como se tivessem existido de verdade. Torcemos intensamente o tempo todo por eles. A narrativa de Chabon dessa forma, me lembra o trabalho de Taylor Jenkins Reed, com uma pesquisa aprofundada de época e personagens de sucesso e fama (Fiquei curiosa em saber se o escritor pode ter sido uma influência para Reed). No entanto, a escrita dele tem maior complexidade, o que tira até certo ponto sua fluidez, mas enriquece a narrativa. Sem falar que aqui trata-se de um calhamaço, um épico, uma história de formação de dois jovens e de um país.
O livro tem muitas camadas: Trata de processos criativos, da exploração do artista na indústria cultural, do anti-semitismo, do holocausto, da segunda guerra mundial, de homofobia, da extrema direita em território americano e do conservadorismo na política e na sociedade. Trata, principalmente, de seres humanos, de relacionamentos, famílias e amizades. De parcerias, encontros e talentos capazes de enriquecer o mundo, tornando-o mais tolerável, mas que, na mesma medida, estão sujeitos à opressão e à violência.
Um dos fatos históricos narrados é o caso do psiquiatra Fredric Wertham, que publicou um livro acusando os quadrinhos de serem péssima influência para as crianças, o que gerou perseguições, colaborou com o enfraquecimento da indústria e levou profissionais e artistas a serem humilhados em tribunais políticos.
Embora seja, na maior parte do tempo, uma leitura leve e bem humorada, os dramas vividos pelos protagonistas são difíceis e reais, inclusive com cena de violência e abuso sexual, por isso, acredito que seja preciso estar minimamente preparado.
Ah!, mais uma coisa: o livro traz capítulos de metalinguagem, onde vemos os personagens criados por Joe e Sam em suas aventuras, e isso é muito interessante.
Infelizmente a edição brasileira está esgotada. Editoras, está na hora de consertar isso.