Em sua fascinante obra “As origens do inconsciente”, Matt ffytche nos lança num envolvente estudo que mescla filosofia e psicologia em um contexto histórico, que superando absolutamente minhas expectativas, reúne diversos pensadores, inúmeras teorias e descobertas surpreendentes; como em um passe de mágica o brilhante autor nos transporta da renascença ao pós iluminismo, portanto mil livros em um só, perfeito, obra de mestre.
“ O lugar de onde tudo veio não pode ser outro senão o lugar de onde tudo continua a vir [...] e que já existia, portanto, não apenas antes do tempo, mas que ainda existe em cada momento, constantemente, acima do tempo.” Schelling, Ages, 114, 134.
No ínterim das intrincadas teorias que prenunciaram a psicologia contemporânea, passamos a conhecer quem foram e como viveram seus idealizadores, ou seja, as mentes brilhantes que moldaram o pensamento humano e o conceito de individuação como o encontro com o “si mesmo”.
Ambientado principalmente na Alemanha, toma por base o romantismo alemão centralizando Schelling e a obra “As eras do mundo”, mas as escolas francesas também são foco de equiparação de alguns confrontos teóricos do período.
Dividido em três partes, somos introduzidos previamente nos objetivos buscados pelo autor nesta historiografia do inconsciente, para então adentrarmos ao sujeito antes do inconsciente onde mapearemos as influências de Fichte no futuro teórico de Schelling, que na parte II toma totalmente a cena com o desenvolvimento do inconsciente da era romântica, para enfim relacionarmos o desdobramento e influências teóricas no inconsciente psicanalítico.
“ A sabedoria chegou aos homens vinda somente das profundezas, com o poder dos oráculos que emanavam da terra, guiando e formando suas vidas.”
O mais fascinante na II parte é como a influência do romantismo alemão direciona o pensamento europeu à metafísica do inconsciente e o reflexo na literatura da época, interligando a representação intelectual à psique. Entretanto, sensacional mesmo foi descobrir que E.T.A Hoffmann e Lovecraft, meus autores favoritíssimos, escreveram sua obra sob influência direta de Schelling e Schubert, e ainda como C.G. Jung, meu mentor de todas as horas [hahaha], bebeu da mesma fonte.
Decerto que a leitura exige foco e concentração, mas o resultado é sem duvida transformador, repleto de citações e referências como: Kant, Hegel, Nietzsche, Benjamin, Heidegger, Derrida, Lacan, Freud, Klein, Sinclair, Winnicott, meu amado Jung, etc, etc, etc... De modo que ultra recomendo esse precioso conteúdo à universitários das áreas de humanas, biológicas e principalmente aos amantes do conhecimento.
“ É certo que agora, quando o Eu se torna um Eu individual […] tendo chegado, então, ao “Eu sou”, com o qual começa sua vida individual, ele não se lembra mais do caminho que percorreu até agora, pois como a consciência só chega no final deste caminho, ele deve ter percorrido esse trajeto em direção à consciência inconscientemente e sem conhecê-lo.”
É de fato o livro teórico mais fantástico que já tive o prazer de ler, amei cada linha.
Excelente leitura!
Resenha publicada no Blog Arquivo Passional em 05/06/2015.