Esse livro é tudo que eu queria que "A Fúria e a Aurora" tivesse sido e mais. Ele é uma joia, que será incompreendida pela maioria dos leitores, porque definitivamente não é YA e não deveria ser vendido como uma história romântica que vai agradar todo mundo. Os livros mais ricos, complexos e intensos raramente conseguem conquistar a maioria das pessoas, e será igual com esse.
Ele é bem diferente de tudo que eu já li. A começar pela sua parte fantástica, que está presente desde o começo e faz total sentido se você pensar no misticismo da cultura nele, mas que eu ainda assim não esperava por ela quando comecei a ler. Não foi o primeiro livro com jinnis que li, mas ainda precisei me acostumar com a estética da fantasia dele, que facilmente poderia ter me parecido boba se eu comparasse com livros fantásticos diferentes. No final das contas, gostei bastante da explicação que a autora deu para os poderes e, mais ainda, de como ela não explicou explicitamente.
O universo desse livro é extremamente rico em detalhes, perfeito para quem quer fugir da vida real. Em nenhum momento, senti que era uma história contada por uma autora do século vinte e um, de tão genuíno e bem trabalhado que foi. Você vai sentir gostos, cheiros e toques que nem sabia que conseguiria através de um livro. São pouco mais de 300 páginas só na minha edição, mas já vi séries enormes inteiras que não tinham um universo tão maravilhoso e rico como esse.
Mas a melhor parte do livro, na minha opinião, a parte que é um tapa na cara daquele outro livro de releitura de Mil e Uma Noites, foi o jeito que a autora tratou as mulheres da história e a condição delas. Nenhuma delas tinha nome. De fato, o único personagem com nome aqui é o rei, e eu demorei para perceber isso. Esse foi só mais um detalhe que me provou que a autora nunca se esqueceu de tudo pelo que as mulheres do rei tiveram que passar. Desde o começo, a protagonista enxerga as mulheres de verdade, as que morreram e as que a rodeiam. Isso é tão raro em livros, o que é bem triste, mas foi lindo de ver aqui.
Para ser bem honesta, eu nem sei explicar direito, só posso dizer que esse livro é uma releitura bem feminista de Mil e Uma Noites, que a abordagem da autora foi maravilhosa e que eu amei ver que a protagonista não se deixaria levar pelo rei e esquecer sua crueldade por poucos atos pequenos de bondade. Esse livro é tudo que A Fúria e a Aurora falhou miseravelmente em ser.
Tá, tenho duas críticas pequenas para ele. Os capítulos pelo ponto de vista do rei não tinham tanta desenvoltura quanto os da protagonista, muitas vezes ficando explicativos demais. E também acho que a narrativa foi um pouco densa demais o tempo todo. Não é um livro chato ou pesado, mas está longe de ser o mínimo descontraído que livros de YA costumam ser, e isso vai afastar muitos leitores mais novos.
Eu super recomendo o livro, mas não para todo mundo. Só para quem quer ler um livro mais denso, intenso, complexo e poético do que a maioria das releituras de Mil e Uma Noites por aí. Ah, e para quem quer ver um livro em que as mulheres realmente são vistas como merecem.