"The Difference Engine" (A Máquina Diferencial), de 1990, foi a primeira grande obra da ficção steampunk. Neste romance, Gibson e Sterling imaginaram uma história alternativa do século XIX.
O pivô da mudança é Charles Babbage, matemático e inventor que, na vida real, a partir dos anos 1820 tentou construir a verdadeira “máquina diferencial”, uma complexa calculadora mecânica, programável como um computador e dotada de impressora. Babbage nunca conseguiu os recursos de que precisava para transformar seus desenhos em realidade, mas em 1989, uma equipe do Museu de Ciência de Londres montou sua máquina e mostrou que ela funcionava perfeitamente. O que, naturalmente, sugere a pergunta: o que teria acontecido se Babbage tivesse concretizado seu sonho e os computadores começassem a mudar a tecnologia e a sociedade mais de um século antes de terem aparecido na história real?
No mundo imaginado por Gibson e Sterling, a aceleração da mudança tecnológica que resulta da combinação da máquina a vapor com a máquina diferencial teria resultado em uma revolução comandada por Lorde Byron e na instauração de um regime tecnocrático liderado por cientistas, industriais e sindicatos operários.
Essa revolução concretiza e inverte ironicamente "Sybil, ou as Duas Nações", romance sobre conflito e conciliação de classes que foi escrito, na história real, por Benjamin Disraeli, mais tarde primeiro-ministro favorito da rainha Vitória e um de seus lordes. No mundo alternativo, Disraeli não passou de escritor popular, enquanto George Byron, na vida real um grande poeta do romantismo inglês, torna-se líder político e o chefe do governo britânico.
No romance de Disraeli, reformas políticas traziam a paz social, simbolizada pelo casamento da jovem operária Sybil, filha de um agitador trabalhista, com o aristocrata Charles Egremont. Na releitura mais realista de Gibson e Sterling, Sybil é seduzida e abandonada por Egremont e torna-se uma prostituta.
Enquanto isso, devido a seu desenvolvimento tecnológico acelerado, o Império Britânico torna-se muito mais poderoso e incentiva a guerra civil dos EUA e sua fragmentação, enquanto o uso das máquinas de Babbage se generaliza a ponto de que cavalheiros vitorianos fazem compras com cartões de crédito, artistas projetam animações pixeladas nas telas de teatros e os governos de Lord Byron e Napoleão III podem registrar e controlar seus cidadãos por meio de cartões perfurados processados por máquinas imensas.
O lado distópico vem à tona com o “Fedor”, um episódio de inversão térmica e insuportável poluição em Londres. A cidade é parcialmente evacuada e cai em um estado caótico, durante o qual grupos revolucionários tentam tomar o poder, emulando a Comuna socialista e feminista que o Karl Marx dessa realidade alternativa liderava em Manhattan. Mesmo assim, os protagonistas comportam-se com a dignidade e a arrogância esperada de heróis vitorianos, convictos da superioridade de sua classe, sua nação, sua raça e seu sexo.
A ousadia de Gibson e Sterling - os dois maiores astros da ficção cyberpunk - de antecipar para o século XIX os perigos e possibilidades da cibernética consolidou o apelido steampunk. Por analogia, especulações sobre desenvolvimentos alternativos da história e sociedade em outras etapas da tecnologia e da história têm recebido alcunhas semelhantes, embora igualmente nada tenham a ver com o movimento punk: clockpunk, dieselpunk etc.