Uma aula de história em forma de arte sequencial, Showa é um ótimo mangá que serve também de documento sobre o período homônimo do Japão (1926 – 1989). Abrindo a narrativa com um terremoto e instabilidade econômica, mostrando décadas de disputas entre comunismo e fascismo, facetas do militarismo delirante e do ultranacionalismo crente de um “destino manifesto” asiático que levou à Segunda Guerra Sino-Japonesa e à Guerra do Pacífico, culminando com o pós-guerra do florescimento econômico de um país rendido e forçadamente pacifista que lucrou com as Guerras da Coreia e do Vietnã; o autor Shigeru Mizuki alterna entre dois estilos diferentes nas mais de duas mil páginas que retratam os fatos turbulentos que levaram ao Japão moderno.
Em contraponto a páginas ricamente referenciadas e com ilustrações realistas sobre fotos da época, há a autobiografia do mangaká ilustrada com um aspecto cartunesco e narrada com pitadas de realismo mágico. Quando o jovem Mizuki é recrutado pelo exército imperial para servir na ilha de Nova Guiné, sua preguiça e seu apetite voraz são entremeados por espancamentos, malária, ataques suicidas, povos aborígenes e entidades do mundo sobrenatural. Ter sobrevivido no arquipélago Malaio já é realismo mágico suficiente, mas essa alternância de história da nação com história pessoal serve também para dar uma certa leveza durante a leitura das variadas catástrofes do século passado e, mesmo que o autor relate uma vida pobre de felicidades, sobra espaço para o cômico do absurdo e a esperança de não repetir os erros do passado. Não menos interessante é ver pela experiência do autor o nascimento da indústria do mangá a partir da arte decadente do kamishibai, as incertezas de um trabalho incipiente e de retorno instável e as agruras do autor já imerso na produção em série que solapa qualquer atividade prazerosa.
Um ponto muito positivo da obra é a retratação sincera, desprovida de vitimismo dos japoneses e imbuída de um pesado sentimento de culpa do autor pelas tragédias que se sucederam desde o início do período Showa. O preconceito arraigado entre japoneses, chineses e coreanos, a colonização da Manchúria, a criação do estado fantoche de Manchukuo, o massacre de Nanquim, o ataque a Pearl Harbor, a busca suicida dos militares por glória, o prolongamento da guerra com um aparato militar em frangalhos, e a crença de que o Japão deveria libertar a Ásia de colonizadores ocidentais são alguns dos argumentos deste libelo antiguerra e antimilitarista. Também iluminador é o fato contraditório de que a ocupação americana pós-guerra foi bem sucedida em dar fôlego e direção à economia e à política japonesas aproveitando-se do país para montar bases para outras guerras e esmagando ideais comunistas.
Com a morte do imperador Hirohito e o fim do período Showa o Japão é um país que deve às guerras tanto o seu passado pós-apocalíptico quanto o seu presente altamente tecnológico, um país rico e feliz que prospera em negócios, mas que ainda tem sua cota de indivíduos pobres e infelizes. Se a história de erros recentes do Japão se repetirá é algo que fica em aberto, mas ela não deixa de ser educativa e tocante.