Criar terror das situações mais banais do cotidiano é o que mais gosto no terror psicológico. Essa técnica de pegar aquilo que todos conhecemos e tornar assustador tem em Stephen King seu maior expoente, mas vários autores conseguiram seguir essa linha imprimindo sua marca própria. No Brasil, acredito que Karen Alvares seja a autora que se sobressai nesse subgênero.
A Bicicleta Fantasma começa com um acidente: Alexandre, um motorista irresponsável, atropela um garoto numa ciclovia. No entanto, esse conto não é sobre o garoto, nem necessariamente sobre sua bicicleta. É sobre Alexandre, sua relação doentia com seu próprio carro e seus valores deturpados.
Ao mesmo tempo que nos assusta com as cenas em que Alexandre se vê envolto de pesadelos, obcessões e perseguição por uma certa bicicleta fantasma, o conto também é uma crítica pesada ao comportamento de certa parcela da população que se julga acima do bem e do mal. Até que ponto valores doentios não acabam sendo materializados em ações tórridas? Até que ponto não nos importamos mais com objetos que com pessoas?
E depois dizem que o terror não passa de um delírio da imaginação. Acredito que da forma mais doentia, o terror consegue expor nosso lado mais sombrio.
Recomendo para quem curte um terror rápido, direto ao ponto. Mas não espere violência, monstros e afins: por aqui temos aquele terror que nos deixa ansiosos, de final ambíguo e imprevisível.