Prumo em Fio
O "Fio de Prumo", de Maria Helena Latini (7Letras, 2006), chegou as minhas mãos pela própria autora, após uma indicação de trabalho conjunto e de um encontro que brotou das mãos imprevisíveis do destino - que maravilha! Quando me deparei com Maria Helena, entendi estar ali a sabedoria ancestral e a docilidade do sensível, perdido há muito pela nossa voluptuosa civilização. Filosofia de alma, a obra passeia pelas inquietudes e observações do poeta enquanto entidade distinta da bela pessoa. Olhando de longe, mas tão dentro, é-nos oferecido o ponto inicial de uma viagem intelectual que não nos deixa na mesma configuração dantes. Alguns me perguntarão: “mas não é isso a literatura?”. “Quando bem feita, sim” - respondo a plenos pulmões. Conjunto, os textos poéticos reunidos de Fio de Prumo não são complementares, mas desdobramentos. Com momentos e construções incríveis, o livro pontua questões a serem desenvolvidas escritos após, um grande atar e desatar fios da própria humanidade. “É muita vida contida, represada em cada centímetro. Escrever é uma necessidade, uma emergência.” (“Emergência”, p.13). O que mais gosto nesta obra é a possibilidade de não ser fiel a algo além de si mesma. Como brilhantemente aponto Marco Lucchesi na orelha deste livro, é “uma poesia secreta que emerge com discrição e ímpeto”. Sensível a ponto de fazer o leitor se perder, encontrar-se e se reescrever - poema agudo, emaranhado, partilhado. Um a um, os fios se soltam e se delineiam. Para os mais refinados, Fio de Prumo tem seus momentos-cabeça, com Van Gogh (p.53), Quintana (p.61), Cecília (p.59) e Vivaldi (p.54), pontes feitas por uma amante das artes. Para os mais velozes contemporâneos, tem seus poucos poemas desnovelados em “Fuga” (p.49) por exemplo, entendimento de que na simplicidade também há riqueza - e como! Mas ainda fico com os muitos poemas que reverenciam o tempo, eterna questão, e com as muitas ocorrências de interposição de palavras - listas versiculares que formatam a atividade do leitor como agente do significado. Solicito um pouco mais da sua atenção para percorrê-la segundo meu gosto, mapa de minha sensibilidade momentânea. Em primeiro, uma epígrafe do inesquecível Mario Quintana (parece que gênio atrai gênio, não, Maria Helena?). Diz lá: “Quem faz um poema abre uma janela”. E que janela! Janela que é porta, que é vida, que é riqueza de possibilidades, como esta obra se mostrará, inclusive apontando no primeiro escrito, “Motivo”, remetendo ao mote medieval, assunto de tantas viagens e de tantas linhas! Uma sequência metalinguística aparece, levando a crer que seria este o assunto, o fio de prumo do livro - mas não. “Escrever pode ser, então, uma invenção da vida. Acrobacias do imaginário, saltos ornamentais, minha malha branca e fitas na ginástica solo. // Há outros ofícios, mas escrever é diferente. É calar e falar ao mesmo tempo” (“Escrita”, p.16). e vem a autora, com as agulhas do tempo - questão verdadeira que perpassa os escritos - , fazendar um discurso em que as ideias não são entregues de pronto, mas faz com que voltemos à contação da história primeva, como apontou Walter Benjamin com seus “dedos do oleiro”. Um dos pontos altos do livro é a tomada da página pela artista. Alguém jamais poderá com a voz interpretar exatamente Fio de Prumo - nem a querida Maria Helena Latini. O seu texto é da página, da disposição gráfica - não como os concretistas, que a abusavam, mas como Machado, que a faz também dizer sem gritar -, dos interditos - espaços abertos entre suas listinhas versiculares -, dos itálicos enfim - nunca em minhas leituras foram tão expressivos! Simbolicamente, há também um ganho: buscando elementos fortes, o discurso cortês se atravessa. A singeleza do humano. Quadrado (“Esquadros”, p.40), águas de cura (“Cura”, p.60), mola comprimida (“Represa”, p.31), encontro com o mar (“Joia”, que merece um estudo à parte, p.64), baque do sonho (“Repentino”, p.33), pipa (“Sucata para fazer pipa”, p.48), martelar (“O Exercício”, poema singular, p.38), veneno e aquário (“Via Crucis”, p.51)... construtos discursivos densos de poesia, de paixão... E não foram raras as vezes em que meu lápis circulou escritos poéticos desta obra e registrou “excepcional”, “singular”, “incrível”. Como disse à autora, não fui capaz de ler tudo em um só dia - a terceira leitura completa só termina hoje, inebriado e cúmplice que estava de sua delicadeza. Latini nos oferece em “Ofertório” (p.57) a Deus “palavras, // dom”. Eu ofereço a ela minha inclinação e minha leitura. Niterói, 31 de agosto de 2014. Post scriptum: não ouso falar uma palavra a mais sobre “?” (p.37). Ele foi sopro de vida, Clarice.
