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    A Cancão do carrasco -

    Norman Mailer

    Nova Fronteira
    1980
    1035 páginas
    1d 10h 30m
    Português Brasileiro
    4.3
    26 avaliações
    Leram41Lendo1Querem110Relendo0Abandonos4Resenhas1
    Favoritos3Desejados110Avaliaram26

    Baseado na vida do assassino Gary Gilmore.

    Resenhas (1)Ver mais
    Luiz Pereira Júnior picture
    Luiz Pereira Júnior13/09/2023Resenhou um livro
    0

    Obra-prima

    A primeira impressão para muitos leitores que se tem do livro “A canção do carrasco”, de Norman Mailer, é desistir da compra; afinal, não são todos que se animam diante da visão de um livro de 1.030 páginas, mais parecido com um tijolo ou um apoio de porta. No entanto, posso dizer com toda a sinceridade que em momento algum tive vontade de desistir do livro. Mas também é necessário que se diga que não é para qualquer um, pois são minúcias em cima de minúcias, detalhes sobrepondo-se a detalhes, centenas de personagens (todos reais, ao que parece) para descrever os crimes cometidos pelo assassino real Gary Gilmore e, posteriormente, todo o processo de acusação, condenação à pena de morte, execução e pós-execução. Não é um livro para se ler às pressas (talvez seja bom intercalar com outras leituras, mas fiquei tão absorvido com o livro que nada mais li durante um mês), mas também não é um livro arrastado, cheio de moralismos psicologizantes ou tentativas de angariar a simpatia do leitor. Um prato cheio, ou melhor, um banquete inteiro para uma discussão sobre a pena de morte. O livro é basicamente composto por narrativas, em sequência cronológica na maior parte da obra, de praticamente todos os personagens (melhor seria dizer pessoas) envolvidos na trajetória de Gary Gilmore. Assim, aparecem as visões, ideias, conceitos da família do protagonista (uma pessoa real, é necessário salientar), mas também dos advogados, das secretárias dos advogados, dos policiais, das vítimas, das famílias das vítimas, dos profissionais de imprensa e da mídia, dos carcereiros, dos colegas de prisão, da amante, da família da amante e por aí vai. E o que talvez seja mais impressionante: todo esse enorme acúmulo de dados é contado praticamente apenas por meio de narrações e diálogos, com pouco uso de descrições e menos ainda de trechos digressivos ou filosofantes, o que seria de esperar de uma obra tão longa e tão complexa. Mas também é preciso realçar que Norman Mailer, mesmo sem utilizar opiniões ou subjetivismos quaisquer e apenas por meio de sua monstruosa força narrativa, consegue passar uma visão das classes baixas (ou menos favorecidas, se preferir) americanas, com toda a sua enorme carga de preconceitos (raciais, sociais, de gênero, de orientação sexual, de faixa etária, geográficos) e seu materialismo à toda prova. E, mais uma vez, reforço: para ser grande, retrate sua aldeia de forma que o mundo inteiro se reconheça nela. E isso Norman Mailer o faz como poucos. Vale a pena? Se você tiver coragem para uma obra que retrata um crime real, com minúcias que parecem desnecessárias (mas que, sem elas, o livro não passaria de mais um relato de crime), com dezenas (talvez centenas) de personagens e com mais de mil páginas, sim, esse é o livro para você. E de poucas obras posso afirmar isso: sim, “A canção do carrasco”, de Norman Mailer, é uma obra-prima.

    3 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.3 / 26
    • 5 estrelas50%
    • 4 estrelas35%
    • 3 estrelas8%
    • 2 estrelas8%
    • 1 estrelas0%
    Norman Kingsley Mailer profile picture

    Norman Kingsley Mailer

    Norman Kingsley Mailer, ou apenas Norman Mailer, como é mais conhecido, foi uma das mais importantes consciências críticas dos Estados Unidos. Nascido em uma família de imigrantes judeus de classe média, dedicou-se, a partir de 1939, a estudar engenharia aeronáutica na Universidade de Harvard. Sua paixão, no entanto, sempre foi a literatura. Antes de terminar a formação como engenheiro na Universidade da Sorbonne, em Paris, ele participou dos anos finais da Segunda Guerra Mundial, servindo nas Filipinas e no Japão. Essa experiência lhe permitiu escrever "Os Nus e os Mortos", imediatamente aclamado como um dos principais romances da literatura norte-americana. Famoso aos 25 anos, passou a trabalhar como roteirista em Hollywood. Nesse período, teve vários livros recusados pelas editoras, e as obras que conseguiu publicar não passaram de fracassos. Na década de 1950, começou a colaborar com o jornal "The Village Voice", onde se tornou o polemista agressivo, especialista em analisar as diferentes características dos EUA. Assim, ao lado de Truman Capote e Tom Wolf, Mailer renovou o jornalismo norte-americano, criando o gênero conhecido como jornalismo literário. Em "O Super-Homem vai ao Supermercado", por exemplo, ele acompanha as convenções políticas dos partidos Democrata e Republicano entre 1960 e 1968, narrando com profunda ironia todos os detalhes. Em 1967, a obra "Os Exércitos da Noite", na qual Mailer narra a grande marcha pacifista - ocorrida em Washington nesse mesmo ano - contra a Guerra do Vietnã, ganhou os principais prêmios literários norte-americanos: o Pulitzer, o National Book e o da Universidade de Long Island. Ele voltaria a ganhar o Pulitzer em 1980, agora com uma obra de ficção, o romance "A Canção do Carrasco", baseado na vida do assassino Gary Gilmore. Personagem polêmica, controvertida, odiado pelas feministas, Mailer foi um inestimável provocador, que jamais se cansou de defender os princípios liberais e de olhar seus contemporâneos com amargura. Escreveu 39 livros, reconhecidos pela originalidade e pela crueza da linguagem - dentre eles, onze romances. Jamais escreveu sua autobiografia. "Cada vez que você passa por uma experiência muito intensa, forma-se um cristal na sua personalidade, que projeta reflexos para escrever muitas histórias", ele disse certa vez. E concluiu: "Em uma autobiografía, provavelmente você destrói todos os seus cristais". Romancista, ensaísta e dramaturgo, escrevendo sobre boxe, dialética, drogas, existencialismo, fascismo, sexo, pacifismo, violência, câncer e guerra, paranóia e política, tecnologia e totalitarismo, ou dedicando-se a elaborar a biografia da atriz Marilyn Monroe, Norman Mailer foi um dos principais renovadores da literatura norte-americana do século 20. Fontes: "The New York Times", "El País" e "La Vanguardia".

    28 Livros
    31 Seguidores
    Nova Jérsei, EStados Unidos

    Norman Kingsley Mailer