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    O Mistério do Mal - Bento XVI e o Fim dos Tempos

    Giorgio Agamben

    Boitempo, Ed. da UFSC
    2014
    80 páginas
    2h 40m
    ISBN-13: 9788575594278
    Português Brasileiro
    3.5
    22 avaliações
    Leram41Lendo6Querem55Relendo1Abandonos0Resenhas3
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    Neste breve volume, ao interpretar a renúncia do papa Bento XVI, em chave, a um só tempo, teológica e política, escatológica e histórica, Giorgio Agamben aborda a questão da crise da sociedade e das instituições contemporâneas ressaltando como ponto crucial a confusão entre legalidade e legitimidade. No bojo de suas considerações, o filósofo italiano aponta ainda o papel da Igreja nos dias atuais. O livro é composto por dois textos. O primeiro, “O mistério da Igreja”, é uma reflexão sobre o significado do gesto de Bento XVI à luz de Ticônio, teólogo donatista do século IV cuja doutrina teria influenciado fortemente santo Agostinho em sua concepção das duas cidades, a dos homens e a de Deus. O segundo, “A história como mistério”, é a transcrição de uma conferência que o autor proferiu na Suíça, em novembro de 2012, quando recebeu o título honoris causa em teologia. Logo no início do volume, Agamben adverte o leitor da pertinência de publicá-los lado a lado: ambos tratam da mesma questão, o “significado político do tema messiânico do fim dos tempos, tanto hoje como há vinte séculos”. Essencial para a compreensão dessa aproximação é o Apêndice, no qual o autor reproduz os textos que são os pilares de sua interpretação: a “Declaração de Celestino V” (1215-1296), o outro papa que entrou para a história por ter renunciado ao cargo, a “Declaração de Bento XVI” – ambos em versão bilíngue, latim-português –, a segunda e a sétima regra do Liber regularum de Ticônio, respectivamente, “O corpo bipartido do Senhor” e “O diabo e seu corpo”, e o capítulo XIX do Livro XX de A cidade de Deus, de santo Agostinho, dedicado ao comentário da Segunda espístola aos tessalonicenses, do apóstolo Paulo. O ponto de partida para a leitura que Agamben faz da “grande recusa” de Bento XVI é um artigo que o teólogo Ratzinger escreveu em 1956, aos 30 anos: “Considerações sobre o conceito de Igreja de Ticônio no Liber regularum”. Segundo o filósofo, a consciência de que o bem e o mal são intrínsecos à própria Igreja e de que o mistério está na história, ainda que vá além desta, evidenciada no texto do então futuro papa, permite dizer que seu gesto, muitos anos mais tarde, foi um ato de coragem. Fazendo uso do poder espiritual, sua decisão aponta a necessidade de que a Igreja assuma sua responsabilidade histórica e messiânica e coloca em xeque a legitimidade dessa instituição que “persegue com obstinação as razões da economia e do poder temporal”. Distinguindo dois princípios essenciais da maquinaria política, a legitimidade e legalidade, Agamben mostra como a atitude de papa Bento XVI afeta nossa sociedade, não só porque questiona a legalidade das instituições, mas também a sua legitimidade. Na visão do filósofo, os poderes e as instituições hoje não estão deslegitimados porque caíram na ilegalidade. Ao contrário, a ilegalidade é tão difundida e generalizada que os poderes perderam toda a consciência de sua legitimidade. Por isso, escreve o autor, é errado acreditar que se pode enfrentar a crise das sociedades por meio de ação (certamente necessária) do poder judiciário, “uma crise que investe a legitimidade não pode ser resolvida somente no plano do direito”. A tentativa moderna de equiparar legalidade e legitimidade é – além de resultado do interminável processo de decadência em que entraram as instituições democráticas – totalmente ineficiente, uma vez que as instituições de uma sociedade se mantém vivas somente se estes princípios continuem presentes e atuando sem se coincidirem. Num mundo dominado por opiniões ligeiras, este livro restitui o lugar do saber, do conhecimento e da reflexão cuidadosa na sempre necessária crítica à sociedade em que vivemos.

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    Bernardo Vignoli picture
    Bernardo Vignoli18/03/2025Resenhou um livro
    3.5 (Bom)

    Mysterium Iniquitatis

    Tópico importantíssimo ao direito: “Mistério do Mal” comenta em seus dois únicos capítulos a questão da Legitimidade e da Legalidade; Evidentemente pondo em consideração o estudo escatológico de Ticônio, Agostinho, Clemente V e Bento XVI. Livro interessante, cumpre seu propósito e nada mais.

    1 curtida

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    3.5 / 22
    • 5 estrelas18%
    • 4 estrelas41%
    • 3 estrelas23%
    • 2 estrelas14%
    • 1 estrelas5%
    Giorgio Agamben profile picture

    Giorgio Agamben

    Agamben foi educado na Universidade de Roma, onde em 1965 escreveu uma tese laurea inédita sobre o pensamento político de Simone Weil. Agamben participou dos seminários Le Thor de Martin Heidegger (sobre Heráclito e Hegel) em 1966 e 1968. Na década de 1970, trabalhou principalmente com linguística, filologia, poética e tópicos da cultura medieval. Nesse período, Agamben começou a elaborar suas preocupações primárias, embora seus rumos políticos ainda não estivessem explícitos. Em 1974-1975 foi fellow do Warburg Institute, University of London, por cortesia de Frances Yates, a quem conheceu por intermédio de Italo Calvino. Durante esta bolsa, Agamben começou a desenvolver seu segundo livro, Stanzas (1977). Agamben esteve próximo dos poetas Giorgio Caproni e José Bergamín, e da romancista italiana Elsa Morante, a quem dedicou os ensaios "A Celebração do Tesouro Escondido" (em O Fim do Poema) e "A Paródia" (em Profanações). . Foi amigo e colaborador de eminentes intelectuais como Pier Paolo Pasolini (em cujo O Evangelho Segundo São Mateus fez o papel de Filipe), Italo Calvino (com quem colaborou, por um curto período, como assessor do editora Einaudi e desenvolveu planos para uma revista), Ingeborg Bachmann, Pierre Klossowski, Guy Debord, Jean-Luc Nancy, Jacques Derrida, Antonio Negri, Jean-François Lyotard e muitos, muitos outros. O pensamento político de Agamben foi fundado em suas leituras da Política de Aristóteles, da Ética a Nicômaco e do tratado Sobre a Alma, bem como nas tradições exegéticas sobre esses textos na Antiguidade Tardia e na Idade Média. Em sua obra posterior, Agamben intervém nos debates teóricos que se seguiram à publicação do ensaio de Nancy La communauté désoeuvrée (1983) e da resposta de Maurice Blanchot, La communauté inavouable (1983). Esses textos analisavam a noção de comunidade em um momento em que a Comunidade Européia estava em debate. Agamben propôs seu próprio modelo de comunidade que não pressupunha categorias de identidade em The Coming Community (1990). Nessa época, Agamben também analisava a condição ontológica e a atitude “política” de Bartleby (do conto de Herman Melville) – um escrivão que “prefere não” escrever. Atualmente, Agamben leciona na Accademia di Architettura di Mendrisio (Università della Svizzera Italiana) e lecionou na Università IUAV di Venezia, no Collège International de Philosophie em Paris e na European Graduate School em Saas-Fee, Suíça; anteriormente lecionou na Universidade de Macerata e na Universidade de Verona, ambas na Itália. Ele também ocupou cargos de visita em várias universidades americanas, desde a University of California, Berkeley, até a Northwestern University, e na Heinrich Heine University, Düsseldorf. Agamben recebeu o Prix Européen de l'Essai Charles Veillon em 2006. Em 2013, ele recebeu o Prêmio Dr. Leopold Lucas da Universidade de Tübingen por seu trabalho intitulado Leviathans Rätsel (Leviathan's Riddle, traduzido para o inglês por Paul Silas Peterson)

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    Kingdom of Italy, Itália

    Giorgio Agamben