Ricardo Lísias é um escritor diferenciado na literatura contemporânea. Colocando sempre à prova a linha entre realidade e ficção, Lísias gosta de confundir seus leitores. E nisso ele é muito bem sucedido, goste-se ou não do resultado.
Em Concentração e outros contos, lançado em 2015, temos uma reunião das principais narrativas breves escolhidas pelo escritor. São nove contos, se contarmos a seção Fisiologias, que se divide em oito pequenos textos, como uma só. Em comum a todos? A obsessão de Lísias pela precisão da palavra, pela repetição de uma ideia e pela rigidez da forma. Portanto, Lísias é claramente um prisioneiro da linguagem.
Mas vou começar sem cerimônia pelos melhores. Em Anna O., um dos contos fora da curva obsessiva de Lísias, acompanhamos o desenrolar de um tenso dia na vida de um médico. Poucas são as pistas que Lísias dá aos leitores, mas nas linhas finais revela por que tal médico era tão importante: ele era o responsável pela avaliação da saúde mental do ditador chileno Augusto Pinochet. Seria este um spoiler? Talvez. Mas em contos, meus caros, o que importa é a atmosfera, o percurso, e este aqui definitivamente tem essas qualidades. Altamente político, Anna O. é o meu preferido nesta reunião de textos breves.
O segundo conto digno de destaque é Capuz. Altamente claustrofóbico, acompanhamos a agonizante realidade de um homem que se vê preso sem saber porquê. Parece familiar? E é. Com flertes kafkianos e ecos de O processo e A colônia penal, Lísias aborda a paranoia, a obsessão e a loucura com assinatura própria. Uma ficção muito bem executada na opinião deste singelo leitor.
Agora, meus (nem tão) brevíssimos dois centavos sobre os textos medianos. Em Evo Morales, conto que abre o livro, temos um narrador em primeira pessoa, jogador profissional de xadrez, que está em constantes viagens para campeonatos da modalidade no exterior. Basicamente ele vai nos contar como conheceu o antigo chefe do Executivo boliviano em um aeroporto e como ele se frustra de não ter cruzado mais vezes com o bochechudo, como ele o caracterizou. Bem escrito, despretensioso e fácil de entender, ainda mais se você assistiu O gambito da rainha na Netflix. Ainda no campo do xadrez, temos também Dos nervos e Tólia. No primeiro, duas histórias são contadas ao mesmo tempo e envolvem várias repetições de uma mesma ideia em formas diferentes, na tentativa de Lísias mostrar que a palavra é imprecisa. Já no segundo, o autor busca um paralelo entre a literatura e o jogo de xadrez: ambos exigem concentração e são atividades cerebrais. Apesar de bem escrito, não é um texto interessante. Há ainda os sarcásticos Autoficção, que tem o reaparecimento do personagem Ricardo Lísias, nessa brincadeira nem sempre bem sucedida de tentar dissociar da realidade o nome que estampa a capa do livro, e Concentração, que é um interessante exercício de linguagem em que Lísias usa pequenas variações de nomes para as personagens (Damião/Damian/Dani) na história, numa tentativa de demonstrar como a literatura exige atenção e não é apenas uma perda de tempo com a leitura de mentirinhas, como todo o leitor já deve ter ouvido em algum momento da vida.
Excluindo os oito textos que compõem as fisiologias, que mais parecem um diário, o que definitivamente não me interessa, como a busca por memórias da infância - que podem ser ficcionais ou não de Lísias -, suas angústias e frustrações com a vida (como a perda do amigo André, que se suicidou e é tema de outro livro dele) e o inexpressivo Diário de viagem, que trata de uma busca em Buenos Aires (que, aliás, parece ser outra obsessão do autor) por personagens desinteressantes e revive as mesmas experimentações de linguagem de textos melhores dentro do próprio livro, Concentração e outros contos é um conjunto interessante de pequenas narrativas.
Apesar deste livro ter sido minha introdução à produção de Lísias, que tem títulos que muito me interessam como Divórcio e A vista particular, não sei dizer se este aqui é a melhor apresentação do autor. Sendo bom ou ruim, uma coisa que é inegável nele é: existe aqui um projeto literário. Mesmo que seja permeado por essa busca ingrata da autoficção, que tenta mostrar a linha tênue que separa a realidade da irrealidade e o eu do ele, Lísias já tem uma importante contribuição para a literatura brasileira pela coragem de fugir da mesmice.