Quanto custa um vinho? O quanto pode ser considerado caro? Nós temos o hábito de pensar as coisas a partir dos nossos orçamentos, desejando tudo pelos valores mais irrisórios possíveis pra que possamos acumular mais. Esquecemos a história que perpassa a criação. E aí eu leio esse livro sobre o ‘Barca Velha’, um dos primeiros vinhos de mesa produzido em Portugal, cuja história se veste de preciosidade.
Ele nasce do projeto de uma mulher que, sozinha nos idos de 1870, sonhou em realizar o impossível numa terra tão longe quanto de difícil acesso – mulher essa que fez do seu sonho o sonho de centenas de trabalhadores que reviraram na mão e na força bruta o solo pedregoso do Meão para que as vinhas dessem frutos.
Um sonho que só se realiza nos idos de 1950, mais de meio século depois da morte dessa mulher, a Ferreirinha, quando o projeto de criar um vinho único é missão de vida para um homem que tinha de vocação, talento e nariz o que não possuía de ciência. O rótulo, inclusive, foi criado por ele que o pintou a mão.
Um sonho que só é rotulado quando atinge a excelência, o que significa que são raríssimos os anos em que há “Barca Velha” no mercado, já que quando não alcança (depois de 8 anos de espera) a aprovação do enólogo, ganha outro rótulo (Reserva Especial). Foram lançadas apenas 17 safras de ‘Barca Velha’ em mais de 50 anos de produção).
Quanto mais antiga a safra, mais caro custa um exemplar. Os mais novos que existem no mercado são da safra de 2004 (lançada apenas em 2012) custam por volta de R$ 2.000,00 a garrafa (a próxima safra é desconhecida até mesmo pelo enólogo que o produz). Os exemplares das décadas de 1950 e 1960 podem chegar a R$ 5.000,00 a garrafa.
Um vinho que, mesmo quando aberto mais de 50 anos depois de ser produzido, continua vivo e intenso, segundo relatos de apreciadores... Isso é uma joia... não é pra ter como posse, mas como experiência...
“Há vinhos maiores do que a palavra. Cabe-lhes o tempo, a terra. As gentes que o criaram, do suor da invenção ao dom da vindima. Dançam no copo com força de história. São romance engarrafado”. (Barca Velha – Histórias de um vinho. Ana Sofia Fonseca).