Madara é uma boa metáfora para a ambição humana. Nega as soluções pacificas para resolver os conflitos, distorce as regras em proveito próprio (inclusive a regra principal da existência humana), manipula, informa que deseja o bem maior e, no fim, confessa o desejo egoísta pelo poder. É interessante o conceito do Zetso negro, uma ideia tão forte que ganha vida e consciência para ser realizada. O criador dela deve se esbaldar de vaidade. Todo o tirano pensa que está sozinho, que pode levar o mundo nas costas e ninguém possui mais desejo de poder que ele. Madara viu que o seu desejo era a continuidade do desejo de outro ser. Escolha narrativa que está conectada com toda a narrativa até o momento: manipulação atrás de manipulação, jutsu atrás de jutsu, plano atrás de outro plano. Se esta escolha partisse de outro ninja, seria interessante e irônico. O ninja mais perigoso da existência sendo enganado. Mas a última grande revelação de Naruto é mais divina que humana.
No fim tudo se resumiu a um confronto de deuses onde os humanos são meros peões ou cascas. É estranho conectar este desfecho com o início da história onde um garoto deseja chamar a atenção de toda a sociedade para que todos ouçam o seu sonho. É estranho, mas é fácil de explicar. A escala de poder e a suposta "grandeza" dos personagens precisam ser exageradas ao máximo. Não basta o Naruto salvar a sociedade que tanto o oprimiu. É preciso colocá-lo acima do mito fundador de todo aquele universo. O leitor precisa terminar o mangá tendo a certeza que não existe nada mais forte que o protagonista. Este exagero ofusca. O autor nos força a olhar tanto para o macro que quase perdemos os detalhes, a relação entre as pessoas.
Kishimoto não iria conseguir todo o sucesso que conseguiu se não conseguisse trabalhar temas em sua obra. No final escolheu o simples. Em meio a poderes capazes de dizimar nações inteira, trabalhou a questão do coletivo versus individualismo. Merece elogios porque estas duas ideias foram bem trabalhadas durante toda a obra através de diversos personagens, principalmente do Sasuke e do Naruto. Na primeira camada o entendimento é simples: trabalho em equipe é tão poderoso que pode superar os poderes de uma deusa. Porém, a segunda camada trabalhada pelo autor me fez adorar esta obra.
Pensar de forma coletiva não é impor a sua coletividade a força aos outros. Muito menos matar ou destruir qualquer um disposto a lutar pelo individualismo. Pensar de forma coletiva é sempre estar disposto a ajudar alguém; é acreditar no melhor das pessoas, independente dos erros cometidos, e acreditar nesta ideia independente dos obstáculos. Ser Hokage é pensar nos outros em vez de si e ir na frente tomando pancada como o Naruto disse tantas vezes neste final. É acreditar no conjunto e não no poder político dado a ele. Se Naruto não conseguisse fazer o melhor amigo enxergar esta filosofia de vida, não poderia se tornar Hokage. Quero não gostar deste final, mas adoro esse final.